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Entrevistas / Perfis

Vicente Amorim: no set/Divulgação

31-05-2010 ////////

Vicente Amorim

Termina o set de "Corações Sujos"

O cineasta Vicente Amorim, diretor de “O Caminho das Nuvens” e “Um Homem Bom”, acaba de sair do set de “Corações Sujos”. O terceiro longa de ficção do diretor (veja os bastidores) é uma adaptação do livro homônimo de Fernando Morais e uma produção Mixer e Globo Filmes, com previsão de lançamento para 2011. Enquanto a obra de Morais é uma investigação da organização ultranacionalista Shindo Renmei, de japoneses que matavam os que ofendiam a honra do Japão ou acreditavam na derrota do país na Segunda Guerra Mundial, o filme será uma história de amor entre dois imigrantes, com estrutura de thriller, tendo os atentados terroristas como pano de fundo.

Vicente contou com uma equipe de peso para rodar “Corações Sujos”. Os diálogos em japonês foram adaptados por Yuki Ishimaru, responsável pelos diálogos de “Cartas de Iwo Jima”, de Clint Eastwood. A produção do elenco nipônico ficou a cargo de Yutaka Tachibana, que também trabalhou no longa de Eastwood. O casting é liderado por japoneses e o filme será 70% falado neste idioma. Para se comunicar com o elenco, Amorim teve a ajuda da tradutora Nilva Kurotsu.

O protagonista é Takahashi (Tsuyoshi Ihara), fotógrafo imigrante casado com Miyuki (Takako Tokiwa), professora primária que narra o filme. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, ele se junta a um grupo dedicado a pregar a vitória japonesa e aos poucos se transforma no principal matador deste movimento. Com o passar do tempo, ele se arrepende, mas já é tarde demais para reconquistar o amor de Miyuki que, apesar de apaixonada, larga o marido por não reconhecê-lo mais.

Atualmente, “Corações Sujos” encontra-se em fase de montagem e está em negociação com o mercado japonês para ser exibido no país. Nesta entrevista, Vicente Amorim conta o que o atraiu nesta história, revela como foi o processo de adaptação do roteiro e a busca pela escalação do elenco e diz como se comunicava com os atores.

Você lembra quando leu Corações Sujos? O que te inspirou a torná-lo um filme?
Tinha o livro em casa, comprei logo depois do lançamento. Quando terminei “Caminho das Nuvens”, estava pensando qual seria meu próximo trabalho. Queria que o filme tivesse a ver com identidade e adequação. Peguei o livro para ler e percebi que a história tratava de todos os assuntos que eu queria abordar. O livro fala sobre intolerância, fundamentalismo, racismo e todos esses assuntos caem nos temas principais, que são identidade e adequação. Queria contar uma história de amor como thriller e foi isso que mais me atraiu. São temas relevantes ontem e hoje.

Como foi o processo de adaptação?
Longo. O livro é ótimo, muito bem escrito, mas não é um romance e não é centrado em um personagem. Precisei achar o recorte correto para transformá-lo em um thriller de amor e destacar os personagens principais. Eu e David França Mendes, responsável pelo roteiro, ficamos dois anos pesquisando sobre a guerra. Conversamos com alguns japoneses que estiveram presentes e com muitos descendentes. No meio deste processo precisei deixar o projeto de lado durante três anos para dirigir “Um Homem Bom” e retomei em 2007, quando o David me apresentou um roteiro pronto, sólido, que falava tudo o que eu queria discutir. Depois, mais quatro anos se passaram até o término das filmagens. A gente teve uma preocupação muito grande com esse filme porque trata-se de um tema muito delicado. Nós temos o maior respeito pela colônia japonesa que vive no Brasil.

Como foi a escolha do elenco japonês e brasileiro?
A escolha do casting foi muito trabalhosa porque precisava de um elenco excelente que falasse japonês perfeitamente. Procurei aqui no Brasil e achei ótimos atores, mas chegamos à conclusão que precisava de atores que viessem do Japão. Yutaka Tachibana, que também trabalhou em “Cartas de Iwo Jima”, foi o responsável por escolher um elenco de estrelas japonesas. Apesar de serem super famosos no país deles, os atores toparam fazer testes para o filme. Precisava ver se eles se adequariam aos personagens. O elenco nissei foi encontrado em diversas colônias japonesas em São Paulo. Alguns deles nem são atores profissionais, mas são pessoas que gostam de atuar. Temos também um elenco brasileiro, do qual fazem parte Eduardo Moscovis e André Frateschi, que fazem os papéis centrais.

Como foi feita a comunicação entre os atores e a produção do filme?
Parece mais complicado do que realmente foi. Quase todos os atores falavam um inglês rudimentar. O que tornou o processo mais simples foi o período de ensaios, que durou 28 dias. Durante esse tempo, discutimos tudo com a ajuda de um intérprete, então no set foi muito mais fácil. Para a minha avaliação sobre a atuação deles, eu não precisava necessariamente saber japonês porque a emoção é universal. É um idioma muito difícil de aprender, mas os diálogos do filme eu sabia. Quando algum ator errava o texto, eu percebia.

O que mantém a contemporaneidade de um filme que se passa no fim da Segunda Guerra Mundial?
O primeiro fator que faz com que qualquer filme seja contemporâneo é a identificação do público com os personagens e a trajetória deles. A segunda questão é a importância de temas como racismo, manipulação da verdade e intolerância, que são assuntos tratados por trás da história principal. Essas questões nunca estiveram tão atuais.

Apesar de contar uma história japonesa, o filme é feito por brasileiros. Como deixá-lo com o nosso jeito?
Conversei com muitos japoneses e nisseis e todos eles disseram que essa história só podia ser contada por uma pessoa que não fosse do Japão, tinha que ter o olhar brasileiro. O livro também foi escrito por um brasileiro. Sou fã do cinema japonês e admiro muito a cultura deles, mas tive uma preocupação grande em não deixar o filme com essa cara. Sem contar os atores, ninguém da equipe é japonês ou descendente. Para contar essa história, era preciso ter certo distanciamento dos fatos.

O fato de ser narrado por uma mulher dá uma condução mais romântica e comovente ao filme?
O principal viés da forma como a história é contada é o da emoção e da observação. A mulher japonesa estava afastada de tudo o que estava acontecendo, mas ao mesmo tempo observava tudo. Essa é uma vantagem para o filme. E como se trata de uma história de amor, a mulher tem o dom de dar um ar mais comovente.

Que locações foram utilizadas no filme?
O filme foi 100% filmado em Paulínia. A guerra aconteceu nas cidades de Bastos, Oswaldo Cruz e Tupã, mas elas evoluíram muito, não têm nada a ver com o que eram. Criamos do zero um set com uma atmosfera de interior, com ruas de terra, casas de madeira, um clima de isolamento.


 

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