Entrevistas / Perfis
03-09-2010 ////////
Estevão Ciavatta
Diretor estreia o documentário "Programa Casé" nesta sexta-feira
Diretor de bem-sucedidas atrações de TV, como os programas “Brasil Legal” e “Central da Periferia”, e do premiado curta “Nelson Sargento no Morro da Mangueira”, Estevão Ciavatta cumpre uma nova etapa na carreira a partir desta sexta-feira: chega aos cinemas de seu primeiro longa-metragem, “Programa Casé”.
Finalizado em 2009, dez anos depois do início das filmagens, o documentário conta a trajetória do comunicador pernambucano Adhemar Casé, responsável pelo primeiro programa comercial do rádio brasileiro nos anos 30 e avô de Regina Casé, mulher de Estevão. Para fugir de uma simples homenagem familiar, o diretor procurou chamar a atenção para o pioneirismo do radialista, inventor do primeiro jingle e introdutor da novela e das grandes estrelas no rádio.
Narrado pelo próprio radialista, o filme traz as últimas entrevistas dos compositores Braguinha e Dorival Caymmi, além de músicas e depoimentos de outros expoentes da época como Roquete Pinto, Silvio Caldas, Orlando Silva, Nássara, Almirante, Carmem Miranda, Sílvio Caldas, Noel Rosa, Ciro Monteiro e Roquette Pinto.
Enquanto aguarda a reação do público à produção, o diretor já prepara o seu primeiro longa de ficção, “Saara”, que retrata a miscigenação cultural no conhecido mercado popular carioca que leva o nome do deserto africano. Nesta entrevista, Estevão conta um pouco da experiência de produzir um longa e analisa a transição do documentário para a ficção.
“Programa Casé” marca a sua estreia no circuito comercial de cinema. Qual é a diferença fundamental entre produzir para a TV e para o cinema?
Há diferenças, como o tamanho da tela e o som, que devem ser levadas em conta do ponto de vista artístico. Mas, na TV, é preciso oferecer o tempo todo coisas boas e novas para que o espectador não mude de canal ou desligue o aparelho. No cinema, isso não é necessário. O importante é a pessoa sair com a sensação que você quis transmitir e dizer para os outros que gostou do filme. São estratégias e abordagens diferentes.
Você diz que o Saara, mercado popular carioca no qual se passa o seu filme, revela o que o sociólogo italiano Giuliano da Empoli chama de “o futuro brasileiro do mundo”. Por que?
Isso tem a ver com a miscigenação que vemos lá. Você vai à Europa e parece que está no século 17 neste aspecto. Hoje, já é possível ver um Jean Pierre preto ou árabe, o que era difícil há alguns anos, mas ainda há uma separação muito forte entre as etnias. Já no Saara, as etnias, religiões e culturas se entendem muito bem. Há muita harmonia entre árabes, chineses e pessoas com as mais diferentes origens. No final das contas, todos acabam virando brasileiros. Gosto de uma frase que diz: “Não se deve ter medo ou copiar o que vem de fora”.
Você acredita que caminhamos para uma cultura única, global?
Torço para que isso não aconteça, apesar de os meios de comunicação de massa contribuírem um pouco para isso. Seria muito triste. Mas, felizmente, não creio que teremos uma cultura única no futuro. O transculturalismo é uma tendência forte, mas os povos de diferentes origens guardam características muito peculiares. Basta sair do Japão, de onde acabo de chegar, e ir aos Estados Unidos para notar isso. Graças a Deus, a Terra é muito grande.
A maior parte da sua produção em curta, média e longa-metragem, bem como para a TV, esteve voltada para o documentário. O que você tem percebido e ainda espera dessa transição para ficção?
Conheci tantas histórias e pessoas nos últimos dez anos que tenho ideias de sobra para levar ao cinema. Fazendo ficção, acho que posso levar tudo o que conheci ao cinema e agregar algo novo ao meu trabalho. A ideia é transpor questões que eu venho mostrando em documentário, como a dinâmica dos relacionamentos, para a ficção. Acredito que esse movimento tenha a ver com a minha formação de fotógrafo. Fui fotojornalista. Ao mesmo tempo em que admiro a fotografia documental, também trago o cinema de ficção como uma referência e acho que nele consigo resolver bem a questão estética.
