HOME LOGO

Entrevistas / Perfis

Maria Ribeiro e Luz Cipriota/ Divulgação

26-02-2010 ////////

Paulo Halm

Roteirista tarimbado estreia como diretor com "Histórias de amor duram apenas 90 minutos"

Paulo Halm tem estrada no cinema. De roteirista, chegou a diretor, após “ralar muito”, segundo palavras dele próprio, em diversas etapas de um filme: desde sua concepção até a produção. Mas depois de ficar um tempo na “geladeira”, resolveu realizar seu sonho: escrever e dirigir o próprio longa-metragem.

“Histórias de Amor Duram Apenas 90 minutos”  resultado da sua primeira experiência como diretor, disputou a Premiére Brasil do Festival do Rio de 2009 e chega às telas brasileiras em 2010. Nesta entrevista, Paulo Halm fala sobre o filme, além de como iniciou a sua carreira no cinema e suas influências cinematográficas.

Quando você decidiu trabalhar com cinema?
Sou formado em cinema pela UFF e trabalho na área desde a década de 80. Mas antes disso, na época do colégio, já tinha interesse em cinema. Eu tinha um cineclube no colégio, onde passávamos filmes tão díspares e inusitados como “Matou a Família e Foi ao Cinema”, de Julio Bressane, “A Noite do Espantalho”, de Sergio Ricardo, ou “São Bernardo”, do Leon Hirzsmann, e claro, o meu preferido, “Marcelo Zona Sul”, de Xavier de Oliveira. Eu e meus colegas de colégio fizemos um curso de cinema brasileiro, promovido pela Embrafilme, ministrado pelo crítico Djean Magno Pellegrinni, que me fez conhecer Humberto Mauro, Anselmo Duartr, Nelson Pereira dos Santos e. Glauber, muito antes de entrar na faculdade. Com 16 anos já tinha visto boa parte dos clássicos do cinema novo, graças a esse curso e também a essa atividade cineclubista. Quando fiz o vestibular já tinha claro que queria fazer cinema – para desespero dos meus pais, que acharam isso uma loucura, algo improvável para alguém como eu, que vinha de uma família de baixa classe média suburbana. Talvez por esse perfil econômico, eu tenha também decidido desde cedo me fixar num campo do cinema em que pudesse trabalhar e me remunerar. Como sempre escrevi, entendi que o setor da atividade cinematográfica no qual eu poderia render mais seria justamente escrevendo roteiros. Mas antes de virar roteirista eu fiz muita coisa, fui assistente de produção, assistente de direção e ralei muito em set. Cheguei à direção do longa não por acaso nem por sorte, mas dentro de uma sólida carreira profissional.

Como surgiu o roteiro deste filme?
Eu costumo dizer que o roteiro surgiu porque eu estava desempregado. Como sou roteirista profissional, estou sempre envolvido com os filmes dos outros, e nunca me sobrava muito tempo para me dedicar às minhas coisas. E eu sempre quis dirigir um longa. Mas sabia que para isso eu teria que ter um projeto economicamente viável, pois enquanto estreante, eu não teria um orçamento muito alto. Além disso, de tanto alugar minha cabeça para terceiros, eu acabava ficando meio “vazio” de histórias. Em 2002, calhou de eu ficar um bom tempo “na geladeira”. Então, de uma só tacada, escrevi três roteiros, um deles era o de “Histórias de Amor Duram Apenas 90 minutos”.

E a ideia para a elaboração do filme?
O filme nasce de uma conjunção de desejos. Eu queria dirigir um longa. E a Helô Rezende queria produzir um filme. Eu vinha escrevendo roteiros de vários filmes e eles ganhavam prêmios em editais de financiamento, como Petrobras, BNDES, MinC, e eu ficava com aquela invejinha, poxa, eu também quero, eu também posso. A Helô, por sua vez, era uma produtora executiva consagrada, mas que também tinha a mesma vontade de produzir um filme dela. Éramos dois profissionais de cinema já tarimbados e com uma excelente folha de serviços prestados para terceiros. Então resolvemos juntar nossas forças e fazermos nosso próprio filme.

Conte um pouco da história.
A sinopse do nosso filme diz que Zeca, jovem escritor às voltas com romance que não consegue escrever, vive no mais profundo ócio. Tem 30 anos, mas age como se fosse um adolescente. É talentoso, mas dispersivo: escreve duas frases e logo desiste. Casado com Julia, eles vivem uma crise de relacionamento, provocada pela forma antagônica com que veem a vida: Zeca não quer nada, Julia sabe o que quer. Zeca é infeliz, porém conformado. Até o dia que começa a acreditar que Julia o está traindo. E para seu espanto, com outra mulher. Pelo que conta a sinopse, parece uma comédia romântica. Mas é apenas aparência. Disfarçado de comédia romântica, o filme trata de uma geração de pessoas talentosas que não conseguem decolar. Este fenômeno é bem comum na classe média aqui no Brasil. Pessoas inteligentes, sensíveis, e que, no entanto, se sabotam, se enrolam, ficam eternamente promissores, incapazes de realizar seus sonhos, seus projetos. São escritores que não publicam, cineastas que não filmam, promessas que não se cumprem. Homens e mulheres jovens que não querem sair da proteção dos pais, que esticam sua adolescência ad infinitum...ou ad nauseam. E por serem incapazes de realizarem qualquer coisa, acabam idealizando ao máximo o próprio ato da criação. A criação deixa de ser um processo concreto, dialético, e vira uma fantasia, uma obsessão, um ideal inatingível. Então tudo que existe em volta, tudo o que é real, é minimizado, é amesquinhado, é passível de crítica e de menosprezo, enquanto que aquilo que não existe, que apenas se deseja, ganha aura de superior, de especial. Parafraseando Joyce, o filme poderia se chamar “Retrato do artista enquanto jovem... e preguiçoso”. Mas tudo isso discutido de forma divertida, ágil. Não se trata de um filme “cabeça”, apesar de o nosso protagonista se comportar como um artista “cabeça”.

Como foi a escolha de Caio Blat, Maria Ribeiro e da argentina Luz Cipriota?
Na verdade, a escolha do Caio se deu naturalmente. Ele é, sem dúvida, o melhor ator da sua geração e o ator mais próximo da idade do personagem, beirando os 30 anos. Foi o Caio quem sugeriu a Maria, por conta das situações de intimidade física e de cotidiano que o filme propunha. Ele achou que poderia ser interessante fazer o filme com a própria esposa. O engraçado dessa história é que eu conheço a Maria a muito tempo, antes mesmo de conhecer o Caio, e nem sabia que eles eram casados. Acompanho a carreira da Maria desde que ela atuava em curtas de amigos meus. Maria tem uma beleza brejeira, morena, tão brasileira e, ao mesmo tempo, sofisticada, algo “afrancesado”, uma beleza inteligente, o que eu procurava para a Julia. Já achar a Carol foi mais complicado. Originalmente, a Carol nem era argentina. Ela tornou-se argentina por uma estratégia de produção. Colocamos o projeto para disputar um apoio do fundo Ibermedia, em coprodução com a Argentina, e achamos que seria interessante que um dos personagens do filme fosse argentino. Queríamos uma atriz loura, bem jovem (a ponto de ser aluna do personagem da Maria), mas curiosamente todas as atrizes louras e jovens argentinas trabalham basicamente em programas infanto-juvenis. E nosso roteiro tem algumas coisas fortes, desde nudez, cenas de sexo e o lesbianismo, nada muito recomendável para quem quer trabalhar para plateias teens. Finalmente, a pessoa que fazia o casting em Buenos Aires sugeriu a Luz, que havia acabado de rodar o filme do Gael Garcia Bernal, “Deficit”, no México. Ela me mandou vários tapes com testes dela e eu fiquei encantado. Luz tinha o talento, a beleza e o frescor que a personagem exigia. E também sabia dançar, o que atendia a uma exigência da personagem. Quando ela veio ao Brasil para uma primeira entrevista levamos um susto, porque era uma menininha, os cabelos enrolados numa trança. Nem de longe sugeria a louraça sensual e provocante que aparece deslumbrante no filme. O que apenas atesta o seu talento e carisma. A Luz cresce na tela, é impressionante como a câmera gosta dela.

Fale um pouco sobre suas referências cinematográficas.
São tantas... desde Nelson Pereira dos Santos, de quem fui aluno na UFF, a Godard, passando por Xavier de Oliveira (considero "Marcelo Zona Sul" e "André, a Cara e a Coragem" dois dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos), Coppola, Ettore Scola, Buñuel, Joaquim Pedro de Andrade, Kurosawa, John Huston, Eduardo Coutinho, Sergio Leone, Jacques Rivette, Roberto Santos, Billy Wilder, Mario Monicelli, enfim, tenho um gosto bastante eclético. Como roteirista, partilhei a criação de diversos filmes, ao lado dos diferentes diretores com quem trabalhei e com os quais aprendi muito, desde o Durán, o Zé Joffily, o Sergio Rezende, a Sandra, passando por monstros sagrados como o Ruy Guerra, o Carvana e gente mais da minha geração de cinema, como a Ana Luisa Azevedo e a Rosane Svartmann. Com eles eu compartilhei o momento da gênese de um filme, quando uma ideia vira palavra que depois vira imagem, e som, imagem e som em movimento. Aprendi muito com eles e sou muito grato por isso. E tem também os diretores que são da minha geração, mas que chegaram ao longa antes de mim, que admiro muito também, e que de certa forma, norteiam o meu olhar, que são o Jorge Furtado, o Zé Eduardo Belmonte e o Beto Brant. Gosto muito do cinema que eles fazem.

O que você espera da carreira do filme?
Acho que o filme tem uma capacidade de diálogo com um público jovem, entre 20 e 30 anos, que de certa forma irá se identificar com nossos personagens e seus anseios, dilemas e erros. Acho que ele tem uma qualidade que é a de conjugar entretenimento com inteligência. É sofisticado, cheio de referencias literárias, cinematográficas, musicais, em suma, é um filme inteligente, mas que diverte e emociona. Se bem lançado e com um bom boca a boca, penso que pode surpreender.

O que você diria a quem quer fazer cinema?
Estudar cinema é sempre bom, não só pelo que se estuda e se aprende, mas pelo fato de, numa escola de cinema, com outros caras com os mesmos objetivos e ideais, se forma uma patota, uma gangue, uma geração que te acompanhará pelo resto da vida. Isso é fundamental: encontrar a sua turma, onde você irá "recrutar" seu roteirista, seu produtor, seu montador, seu fotógrafo. Fora da área acadêmica, acho que quem quer fazer cinema tem que ver muito, mas muitos filmes. Quando eu era estudante, ia pra cinemateca do MAM e via filmes húngaros com legenda em alemão, sem falar uma palavra em húngaro tampouco em alemão, mas apreciando os enquadramentos, a montagem, a luz etc. Quanto mais filme ver, mas aprende. E quanto mais filmes brasileiros você ver, mais você aprende a fazer cinema no Brasil. Ver filmes brasileiros é fundamental, ainda que lamentavelmente não seja uma tarefa fácil. Somos um cinema estrangeiro em nosso próprio país, a maior parte de nossa filmografia não é disponível em DVD, não passa na televisão. Muitos nem chegam aos cinemas. Além disso, é preciso ler muito, e não só sobre cinema. Mas ler Dostoievski, Graciliano, Machado, Tchekov, Cortazar, Eça de Queiroz, Paul Auster e Plínio Marcos.

E o que você quer fazer daqui para frente?
Eu e a Heloísa Resende estamos trabalhando num projeto, cujo roteiro eu escrevi e que se chama “Amanhã Volta Tudo ao Normal”, que se passa no carnaval do Rio. É um filme feminino, com ponto de vista feminino, bem “mulherzinha” mesmo, e que, como o “Histórias...”, alterna da comédia para o drama, e vice-versa. Estamos começando a captar os recursos para a produção. Apesar de ainda ser cedo para isso, penso em chamar a Débora Falabella para o personagem principal. É uma atriz que admiro muito. Desde que ela fez o Paco, na versão de “Dois Perdidos Muma Noite Suja”, que eu escrevi para o Joffily, tenho vontade de trabalhar com ela. É torcer pra tudo dar certo. Acho que vai dar.

 

Compartilhe! Envie para um amigo!