Entrevistas / Perfis
20-08-2010 ////////
Othon Bastos
Ator diz que Nosso Lar é uma 'chuva de palavras lindas' e que, aos 10 anos, achou que fosse livro de aventura
Aos 29 anos, Othon Bastos atuou em “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, primeiro grande prêmio internacional conquistado por uma produção nacional. Mais de 40 filmes depois, aos 77 anos, o ator volta a participar de uma produção que trata da espiritualidade humana e, graças aos sofisticados efeitos visuais, também amplia os horizontes do cinema brasileiro. As coincidências entre as experiências vividas nas filmagens do clássico e de “Nosso Lar”, em que vive Anacleto, governador da colônia, param por aí. Na verdade, são as diferenças que chamam a atenção e divertem este veterano dos sets.
“Em ‘O Pagador de Promessas’, tudo era muito real. A escada, a cruz, a cidade. Em ‘Nosso Lar’, filmei em frente a um fundo azul, no qual foi projetada a colônia. Não tinha nada ali. Já havia feito um trabalho assim na TV Cultura e, depois, colocaram um corredor, uma biblioteca. Quando vi, perguntei: ‘Eu fiz isso?’. É muito estranho. De qualquer forma, acho que o importante é o que o ator transmite. É isso que as pessoas têm de ver e sentir”, diz ele, para quem a trama que narra a trajetória de André Luiz após a morte demanda o uso dos efeitos especiais.
Apesar de acreditar que os efeitos visuais do longa de Wagner de Assis causarão impacto no público, Othon não vê a evolução técnica como um objetivo em si. Para ele, “Nosso Lar” deve transmitir espiritualidade e mostrar às pessoas que existe algo a ser feito e projetado ao longo da vida. “O livro te envolve, faz você entender essa mensagem de maneira simples, nada intelectual. É uma chuva de palavras lindas. Espero que entendam dessa forma e não achem que é um filme dogmático, que pretende converter o público. Afinal, como dizia Vinicius de Moraes, ‘quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém’. Por essas e outras, ele tem um lugar no céu e em 'Nosso Lar'”, brinca o ator.
Os elogios à obra psicografada por Chico Xavier são feitos em tom nostálgico. Eles trazem consigo a lembrança do pai que, assim como a mãe, Othon perdeu ainda jovem. “Ele frequentava sessões de oração e tinha na estante ‘Evangelho Segundo o Espiritismo’, do Alan Kardec, além de ‘Parnaso de Além-Túmulo’ e ‘Nosso Lar’, do Chico”, conta o ator baiano, que leu o último pela primeira vez aos 10 anos: “O título me chamou a atenção e li como um livro de aventura. O cara morre, vai para um lugar sombrio, depois é resgatado e levado para uma cidade. Parecia uma aventura. As crianças de hoje devem ver o André Luiz como uma espécie de Harry Potter. Com o tempo, você vai aprendendo e percebendo que a mensagem é lindíssima”.
Com o tempo, Othon também passou a refletir sobre a vida, a morte e o que ocorre após as duas. Ainda não chegou a uma conclusão por mais que estude e leia sobre o assunto. Por enquanto, está mais preocupado em dar a sua contribuição enquanto tem saúde. “A vida é um presente e você tem de saber usá-lo. O que vai ser depois, não sei, mas temos de estar preparados para assumir o que fazemos por aqui”, conclui.
