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Entrevistas / Perfis

Guel Arraes e Marco Nanini nos bastidores/Divulgação

22-07-2010 ////////

Guel Arraes

Diretor diz que "O Bem Amado" é uma reflexão sobre a história política do país

O nome é suficiente para revelar a enorme familiaridade com a política. Guel Arraes, ou Miguel Arraes de Alencar Filho, era apenas um menino quando começou a participar de grandes manifestações, das quais seu pai - ex-governador de Pernambuco - era figura central. “O Bem Amado” (veja o trailer), mais do que a versão para o cinema de um dos grandes sucessos de Dias Gomes, é uma reflexão sobre a história política do país.

O filme estreia nesta sexta, dia 23, e traz um time de feras como José Wilker, Mateus Nachtergaele, Caio Blat, Zezé Polessa, Andrea Beltrão, Drica Moraes, Tonico Pereira e, claro, Marco Nanini no papel de Odorico Paraguaçu, o empolado prefeito que busca um defunto para inaugurar o cemitério de Sucupira. Nesta entrevista exclusiva concedida à Pagina do Cinema, Guel diz que “O Bem Amado” responde a uma demanda social pela satirização dos políticos, revela em que cena homenageou o pai, afirma que a recuperação de Drica Moraes é muito mais importante que o sucesso do filme e avalia que “O Bem Amado” é menos nordestino que “O Auto da Compadecida” e “Lisbela e o Prisioneiro”.

Você é filho de Miguel Arraes, importante político de esquerda eleito três vezes governador de Pernambuco, e acompanhou de perto a política brasileira e nordestina nas últimas décadas. Quanto isso pesou na decisão de filmar “O Bem Amado”, uma sátira política?
A minha motivação pessoal para fazer esse filme vem do fato de ele juntar duas coisas que eu frequento: a comédia e os bastidores da política. “O Bem Amado” é uma sátira política. Mas não fiz apenas por motivos pessoais. Acho que é um tema muito presente hoje em dia. A política tem interessado cada vez mais aos brasileiros, por causa da democracia, das eleições. Então, existe esse desejo de juntar a minha vivência dos bastidores da política e esse outro de atender a uma demanda social que é a vontade de rir dos políticos. As pessoas, hoje, entendem os mecanismos da política, as falcatruas, os truques, e ainda não havia sido feita uma comédia sobre essa nova República. “O Bem Amado”, embora escrito muito antes, continua atual. Não sei se as pessoas vão se interessar pelo filme, mas por política elas estão interessadas.

A lembrança de seu pai foi recorrente durante as filmagens?
Sim. Tem até uma imagenzinha do meu pai no final do filme, junto com outras pessoas no comício das Diretas Já - a história dá um salto e o epílogo ocorre nesse momento. O longa fala de hoje, mas é um filme de época que se passa entre 62 e 64, período áureo da trajetória do meu pai. Embora eu fosse muito pequeno, assisti a algumas grandes manifestações e a fatos históricos que me despertaram o interesse pela política. O texto narra a mesma luta da esquerda com a direita, a disputa acirrada, coisas que eu acompanhei a partir desse período. Então, o filme está ligado mesmo à minha história pessoal.

Você trabalhou com o universo nordestino nas comédias “O Auto da Compadecida” e “Lisbela e o Prisioneiro”. Isso se repete em “O Bem Amado”, que, no texto de Dias Gomes, se passa na Bahia. Por que você fez essas opções e que manifestações da cultura nordestina mais contribuem para os seus filmes?
É curioso mesmo. Dos cinco filmes que fiz, três trazem o universo nordestino em maior ou menor grau. Mesmo “Romance” tem uma sequência lá. É quase uma coincidência. No caso de “O Bem Amado”, o nordeste não é propriamente um tema do filme. Nem localizei muito a trama, que se dá em uma cidade do litoral vagamente localizada no Nordeste. Ele não é tão nordestino quanto o “Auto” ou mesmo “Lisbela”. O tema principal é a política e o ambiente é o Brasil, o país da política, mais do que o nordeste. O Odorico poderia ser um político de qualquer lugar, por isso, não quis localizar muito. Não falo onde é Sucupira em momento algum para dar a impressão de que a cidade é o Brasil.

Mas tem algo de nordestino no tipo de humor que você faz?
Nos outros, sim. Há uma prosódia, um humor nordestino muito presente. Não só na linguagem, mas até no tipo de comédia. Acredito na existência de uma comédia nordestina, que me toca muito. É muito engraçado isso porque reagimos ao humor sem intermediários racionais, e nos toca mais o tipo de humor cujo mecanismo aprendemos na infância. Então, de fato, acho muito engraçadas essas histórias do Nordeste. Mas Odorico e “O Bem Amado” são menos nordestinos. Os personagens nem têm sotaque. Os dois personagens do povo, o Chico Moleza e o Zeca Diabo, falam a linguagem nordestina. Os outros falam a linguagem da elite brasileira. A prosódia do Odorico não é propriamente nordestina. Os neologismos são uma criação do Dias Gomes, uma crítica calcada no jeito barroco, pretensioso e empolado dos políticos de forma geral e não dos políticos nordestinos.

O texto de Dias Gomes é de 1962. Sucupira ainda é um retrato do Brasil?
Atualizamos algumas coisas. A questão da esquerda era fundamental atualizar no texto do Dias Gomes. Precisávamos fazer uma sátira da esquerda. O que mais mudou na política brasileira? Muitas coisas, mas, em 1962, a esquerda era uma utopia, uma promessa de mudança, de justiça social e um pouco intocável, sobretudo na visão do Dias, que era ligado a essa corrente política. Em uma sátira política, você só ri dos poderosos. “O Bem Amado” é uma sátira política, econômica e social do provincianismo dessa elite brasileira, e a esquerda não era elite na época. Não tinha porque fazer uma crítica à esquerda na época. Hoje, a esquerda chegou ao poder, existe uma casta de esquerda, então, era inevitável fazer isso. Aliada a outras mudanças - como a que tornou o Odorico mais urbano, com menos jeito de coronel bronco, e a que fez das Irmãs Cajazeiras damas da sociedade -, a história se atualiza, fala do momento que vivemos.

A cultura, através da música e do cinema, entre outras manifestações, teve papel importante em diversos momentos na política brasileira. Você acredita que o lançamento de “O Bem Amado” no início de uma campanha eleitoral pode contribuir para este processo?
Independentemente da campanha, toda comédia é feita para que você se divirta e reflita. Você ri dos defeitos, dos vícios e, dessa forma, você está, de certa maneira, corrigindo-os. Como diz o ditado latino, “rindo se castiga os costumes”. Você revela os defeitos, mas, em uma segunda etapa, você pensa sobre isso. Em época de eleição, isso fica mais forte.

A Drica Moraes fez parte do elenco do filme. Como repercutiu na equipe a notícia de que ela estava com leucemia?
As filmagens já haviam terminado nesse momento. Soubemos depois, já em casa. Foi difícil. A Drica é muito, muito, muito querida. Uma pessoa muito animada. Pelo que acompanhei, ela enfrentou com uma coragem e um astral incomensuráveis. Foi uma saga. Um negócio que não dá para imaginar. Ficamos muito felizes que, no dia da pré-estreia em São Paulo, ela estava tendo alta também em São Paulo. Foi a melhor notícia que a gente já teve. Isso é mais importante que tudo. Quando você vê uma coisa dessa acontecer paralelamente, percebe que o resto é brincadeira. Ficar preocupado com o filme, nervoso com o lançamento, tudo isso é brincadeira. Depois da filmagem, todos se separam e voltam a se juntar para o lançamento. Então, soubemos todos juntos da alta dela. Foi um momento bacana porque estávamos reunidos novamente e faltava ela quando soubemos que, em breve, já poderíamos encontrá-la.

Quais são os seus próximos projetos?
Tenho feito televisão desde o fim das filmagens de “O Bem Amado”, há um ano. Fiz “Ó Pai Ó” e, agora, estou com um projeto do João Falcão, que ajudei a adaptar para a TV, chamado “Clandestinos”.
 

Veja também o trailer do filme, cenas de bastidores, um discurso de Odorico Paraguaçu, Zeca Diabo em ação, a elegância das Irmãs Cajazeiras e a história de amor de Violeta e Neco Pedreira.

E leia as entrevistas de Marco Nanini, José Wilker e Caio Blat.

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