Entrevistas / Perfis
15-07-2010 ////////
Tatiana Issa e Raphael Alvarez
Diretores de "Dzi Croquettes" analisam o legado do grupo
Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e nenhum tostão no bolso. Foi assim, imbuídos da filosofia de Glauber Rocha, que os atores e, agora, diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez filmaram “Dzi Croquettes”, documentário que estreia nesta sexta-feira, dia 16, e pode se tornar o mais premiado da história do cinema nacional. Nele, os dois resgatam a curta e marcante trajetória do grupo de dança e teatro homônimo, que confrontou preconceitos e a ditadura militar na década de 70 com um visual andrógino e uma enorme dose de ironia e criatividade. O filme é também uma emocionante homenagem de Tatiana ao pai, que fez parte da equipe técnica da trupe, e aos seus 13 integrantes, com os quais viveu em Paris aos quatro anos de idade, época em que os chamava de “palhacinhos”. Nesta entrevista, ela fala de sua infância heterodoxa, revela as dificuldades enfrentadas para produzir o longa e conta como “botou o coração na tela”, enquanto Raphael analisa o legado deixado pelo Dzi Croquettes para a cultura brasileira.
Tatiana, o seu pai, Américo, trabalhou com o Dzi Croquettes. Qual foi a participação dele na trajetória do grupo? Quanto isso contribuiu para que vocês fizessem o filme?
Tatiana: Ele fez parte da equipe técnica quando os Dzi estavam em Paris em turnê. Meu pai foi nessa onda e acabamos morando com os Dzi lá. Na época, era aquela coisa de comunidade, todo mundo morando junto. Eu era muito pequenininha. Meu pai fazia luz, cenário, adereços, funções da parte técnica do grupo. Isso contribuiu muito para que fizéssemos o filme porque é uma experiência incrível para uma criança ter a oportunidade de viver com pessoas absolutamente geniais, incríveis, únicas e criativas em um universo muito particular. Tive uma infância privilegiada em todos os sentidos por estar no meio dessa criatividade, dessa loucura e de pessoas tão talentosas. Claro que isso marcou a minha vida e influenciou na opção de fazer o filme. Eu comentava com as pessoas da minha idade, amigos, e nenhum jovem de 35 anos para baixo jamais havia ouvido falar de Dzi Croquettes.
Por isso, vocês decidiram fazer o filme.
Tatiana: O Rafa é meu amigo há 25 anos. Nos conhecemos desde criança e temos uma amizade incrível. Somos irmãos praticamente. Abrimos a produtora em Nova York com a ideia de divulgar outros lados do Brasil. Moramos fora – ele há 18 anos em Nova York e eu há oito, depois de ter morado na Europa – e, sempre que falávamos de Brasil, percebíamos que os estrangeiros ainda têm uma visão um pouco clichê, que sempre resvala na violência, no futebol e no carnaval embora tenhamos tanta riqueza cultural. Achamos que era o momento de contar a história do Dzi, de fazer esse resgate. Quem assiste ao filme vê o enorme legado que eles deixaram para o país. Criaram termos que hoje estão no dicionário, grupos cujas músicas nós dançamos, tipos de humor e de teatro como o besteirol, que hoje a gente vê em programas de TV, influenciaram a dança, a Bossa Nova... Enfim, o legado é imenso e isso, infelizmente, não havia sido registrado.
Dê um exemplo de um termo criado por eles.
Raphael: A palavra “tiete”, que veio da atriz Duse Naccarati, que tinha contato com eles e chamava as pessoas dessa forma quando elas se metiam muito nas coisas.
Tatiana, você tinha menos de cinco anos quando viveu com os integrantes do Dzi Croquettes. Do que você se lembra desta época?
Tatiana: Lembro-me de tudo praticamente. Claro que é uma memória afetiva. Na minha cabeça, eles eram palhacinhos. Toda aquela maquiagem e aquele visual tinha, para mim, outra conotação. Eu via isso através de um olhar inocente, puro. Conforme fui crescendo – ainda trabalhei com eles, que permaneceram na minha vida por muitos anos – essa memória se transformou. Mas a recordação mais genuína, que é a colocada no filme, é a emocional, do carinho durante a convivência com eles. E claro que, junto com isso, resta uma memória criativa de como eles eram coloridos, do figurino, do improviso em cena. Virei rata de coxia. Fui criada nos bastidores, dormia nas cadeiras, então eu via todo o processo criativo, de ensaio, de como se viravam em cena. Isso permaneceu em mim.
Qual foi a principal contribuição do Dzi Croquettes para cena cultural brasileira dos anos 70?
Raphael: É difícil. Todas são muito importantes. O grupo influenciou vários aspectos da nossa cultura. O Lennie (Dale) foi a primeira pessoa que deu uma estrutura à Bossa Nova, pois trouxe essa coisa de ensaio da Broadway na época do Beco das Garrafas (reduto da boemia em Copacabana), o que não era feito na época. Os músicos se preparavam no dia do show e se apresentavam. Tem também influência na dança, que vem através do Lennie novamente, mas principalmente no humor por conta do Wagner Ribeiro. Muita gente sofreu influência dele, como o Miguel Falabella. Ele foi a pessoa que acabou com a barreira entre o público e o palco. Juntou o teatro de revista com o sarcasmo necessário na época da ditadura. Foi quando as pessoas começaram a se posicionar contra a ditadura com humor. A contribuição dele para o teatro é inexplicável. A grande frustração das pessoas que veem o filme é não conhecer essa história. Além disso, tem toda a questão da quebra de tabus. A ideia não era só debater o “ser gay ou não ser gay”, mas defender o “ser quem você quiser ser, amar quem você quiser amar”.
Há poucos registros do Dzi Croquettes em vídeo. Este foi o maior obstáculo que vocês precisaram superar? Qual foi a alternativa encontrada?
Raphael: Foi, realmente, um trabalho de detetive. A primeira pesquisa que se faz hoje para qualquer documentário é no Google. Não tinha nada. Achamos então os cinco (ainda vivos), entrevistamos e soubemos que uma TV alemã havia filmado em película um show deles em 1973 em Paris. Procuramos em todos os lugares e só encontramos imagens na Alemanha. Quase tudo o que se vê no filme é de lá. Conseguimos algumas outras imagens em preto e branco através da Norma Bengell. É até engraçado porque eles perguntam no vídeo: “Tem som? Tá filmando ao mesmo tempo?”. Filmagem era uma raridade na época. Mas o grande achado foi a fita da Alemanha. A Tati conseguiu entrar em contato com essa TV alemã, que não existe mais e vendeu os arquivos para outra emissora. Foi preciso também provar que os Dzi que assinaram o contrato na época já haviam falecido e que o grupo não existia mais. Acreditamos que essa dificuldade de conseguir imagens se deve à ditadura. Como eles foram perseguidos, os arquivos podem ter sido apagados do Arquivo Nacional. Demos sorte de achar as únicas imagens de arquivo deles no palco na década de 1970.
Quantos integrantes da formação original faleceram?
Raphael: Eram 13. Havia alguns personagens super interessantes que fizeram parte da vida deles como a Nega Vilma, que era uma espécie de governanta, e o Dario Menezes, um jornalista apaixonado que viajou junto com eles para Paris. Mas a formação original tinha 13 pessoas. Hoje, restaram cinco vivos. Três foram assassinados, quatro fazem parte do grupo das primeiras vítimas da AIDS e um morreu de aneurisma cerebral. Todos muitos jovens, entre trinta e poucos e quarenta e poucos anos.
Vocês partiram de um orçamento modesto para fazer o filme...
(risos) Raphael: O orçamento vinha do nosso trabalho durante o dia e era consumido à noite durante as gravações. Tentamos encontrar patrocinadores, mas, acho que por conta dos temas tratados e pelo fato de serem considerados um dos primeiros movimentos gays do Brasil, não conseguimos.
Tatiana: Infelizmente, ainda existe algum tabu em relação a certos assuntos e sentimos isso. Ou esperávamos um patrocínio pintar ou partíamos para a briga e fazíamos na guerrilha. Fizemos esse filme sem qualquer patrocínio. Quando viemos ao Rio, conseguimos uma equipe pequena, umas seis pessoas, uma garotada que topou fazer na guerrilha e ajudar a gente com câmera, luz, etc. Em Paris e Nova York, era eu e o Rafa. Colocávamos a câmera, íamos para trás, fazíamos luz, entrevistávamos. Editamos sozinhos. No final, com o filme pronto, mandamos um DVD para o Canal Brasil e o Paulo Mendonça, que podia nem ter aberto o envelope, prestou atenção naquilo e comprou a briga. Entraram nisso como coprodutores, possibilitaram a pós-produção. Agora, temos o apoio da Globo Filmes e estamos muito felizes com isso. Ganhamos os dois prêmios para documentários no Festival do Rio – júri oficial e voto popular. Foi a primeira vez que aconteceu. Na Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, isso se repetiu. Um dos prêmios da competição carioca era o apoio da Globo Filmes, o que ajuda muito.
Vocês se surpreenderam com os elogios e os prêmios conquistados?
Tatiana: A carreira do filme em festivais está sendo muito surpreendente, bem além do que esperávamos. Recebemos prêmios em Torino, Los Angeles, recentemente em São Francisco... Estamos prestes a nos tornar o documentário mais premiado da história do Brasil (“Dzi Croquettes” tem 11 prêmios contra 12 de “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho), o que é muito louco se considerarmos que fizemos tudo na garra.
Raphael: O maior prêmio foi ver, no Festival do Rio, uma galera muito jovem, de aproximadamente 16 anos, sair da sessão com uma vontade de criar, mudar o mundo, ousar. Essa era a grande ideia dos Dzi. Ver isso retornando 35, 40 anos depois, e os cinco Dzi juntos novamente depois de a vida tê-los separado foram os nossos grandes prêmios.
Tatiana: Claro que o prêmio valida de certa forma o filme. Nós ficamos sempre muito emocionados nos prêmios que ganhamos. Mas o mais importante é a reação da plateia, o resgate da história e o quanto as pessoas saem emocionadas, enlouquecidas do cinema.
Raphael: Muitas não acreditam. Perguntavam depois da sessão no Festival do Rio: “Mas isso é verdade ou ficção?”. Acham impossível nunca terem ouvido falar do Dzi Croquettes.
Como foi para você, Tatiana, fazer a narração do filme?
Tatiana: Ficamos muito na dúvida se deixaríamos esse toque pessoal e debatemos sobre isso até o último minuto. Tínhamos medo de isso se tornar mais forte que a história. Mas, à medida que fomos mostrando o filme para algumas pessoas, percebemos que isso as emocionava demais. Acho que se identificam com a leveza, o olhar inocente. Na França, o que mais falaram conosco no final é que o filme deixa de ser apenas documental e se torna autoral por conta da narração.
Qual foi a melhor história que vocês descobriram sobre o grupo? Durante a produção do documentário, ocorreu algo nos bastidores que tenha impressionado vocês?
Raphael: O mais interessante para mim foi descobrir as personagens durante a filmagem. É uma história tão louca que, se você ouvir de apenas uma pessoa, duvida. Ok, a Liza Minelli adorava eles. Mas quando quatro pessoas falam e a própria Liza, aquilo passa a ser real. A coisa das mortes também me marcou muito. Descobri pessoas que mudaram o país e se foram muito jovens. E o legado também.
