Entrevistas / Perfis
17-06-2010 ////////
Caio Blat
Ator vive Neco Pedreira em "O Bem Amado", o terceiro dos quatro longas em que aparecerá este ano
Um dos atores mais talentosos de sua geração, Caio Blat é figura quase onipresente no cinema nacional pós-Retomada. Com apenas 30 anos, já atuou em pelo menos 15 longas (até ele já perdeu as contas), na maior parte das vezes como protagonista. Apenas em 2010, seu nome aparece nos créditos de dois filmes já lançados, “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos” e “As Melhores Coisas do Mundo”, e de outros dois com lançamento previsto para o segundo semestre: “O Bem Amado”, que estreia em 23 de julho, e “Bróder”, ambos coproduções da Globo Filmes. Em “O Bem Amado” (veja o trailer e outras cenas), Caio encarna o romântico jornalista Neco Pedreira, papel que foi de Carlos Eduardo Dolabella na novela inspirada na obra de Dias Gomes. Nesta entrevista exclusiva, o ator fala de suas convicções políticas, conta sobre a visita inusitada que o elenco de “O Bem Amado” recebeu no set de filmagem, em Alagoas, e diz como encarou as cenas ousadas de sexo em que contracenou com a mulher, Maria Ribeiro, em “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos”.
Você tem 30 anos e, portanto, não viu a novela e tampouco a minissérie “O Bem Amado”, grandes sucessos da televisão brasileira. Que tipo de pesquisa você fez para construir o Neco Pedreira?
Sempre assisti a trechos de “O Bem Amado” na internet, principalmente os discursos de Odorico Paraguaçu. Na verdade, tenho grande interesse pela política brasileira, pelo cinismo na disputa entre direita e esquerda, e a distância entre os interesses do povo e os de seus representantes. Sou leitor assíduo de jornais e isso me alimentou para representar um jornalista idealista e crítico.
Chegou a ver o Neco interpretado pelo Carlos Eduardo Dolabella?
Não.
Você disse que conversou com o Lima Duarte, que interpretou o Zeca Diabo na novela, e que ele te contou algumas histórias da época. Qual foi a melhor delas?
Ele me mostrou fotos das gravações, me contou sobre as viagens que faziam para gravar e como eram recebidos como heróis nas cidades por onde passavam. Me disse que, certa vez, o Paulo Gracindo pegou uma macarronada num restaurante e colocou na cabeça como se fosse uma peruca.
Qual foi a história mais interessante ocorrida no set do filme?
Um dia, recebemos no set um grupo de parentes dos políticos locais, verdadeiros herdeiros do coronelismo. Eram primeiras-damas peruas como as do filme. Isso provou a atualidade da história.
Quantos filmes você já fez?
Cerca de quinze.
Qual foi o primeiro? Quanto você acredita que evoluiu como ator de lá para cá?
Meu primeiro filme foi “Lavoura Arcaica” (2001), de Luiz Fernando Carvalho, uma experiência inesquecível. Acho que, hoje, me sinto bem à vontade no set para atuar com tranquilidade. Considero essa uma grande conquista.
Apesar de jovem, desde a Retomada, você é um dos atores com mais filmes no currículo. Talvez seja até o líder nesta estatística. Só este ano, você está no elenco de pelo menos quatro filmes lançados ou que ainda o serão ("Histórias de Amor Duram Apenas 90 minutos", "As Melhores Coisas do Mundo", "O Bem Amado" e "Bróder"). Você prioriza o cinema na sua carreira? Por que?
Os convites para filmar tem sido incríveis, apesar de eu amar o teatro e adorar fazer televisão. Acredito que tenho uma aparência bastante comum, o que favorece minha escalação em personagens totalmente diversos, e venho ganhando intimidade com a câmera através das experiências.
Você fez cenas ousadas de sexo em “Histórias de Amor...” com a Maria Ribeiro, sua mulher. Ela afirmou que foi um desafio expor a intimidade de vocês, além de ver você contracenando com outra em cenas semelhantes. Como você encarou a experiência?
Gosto de atores e diretores que filmaram suas relações, como Woody Allen e Domingos de Oliveira. De certa forma, o cinema protege aqueles que se expõem. É gratificante ter um registro amoroso da relação.
O Jeferson De, diretor de “Bróder”, disse que, depois de ler o roteiro do filme, você agradeceu e disse que sempre quis ser negro. Por que?
Admiro a cultura negra. Acho que tudo que foi feito de genial neste país vem dos negros, desde Zumbi e Pelé até Jorge Ben Jor e Mano Brown, sem falar em Joaquim Barbosa. Interpretar um branco que se sente negro foi uma forma de homenagear meus ídolos negros.
Você se mudou para o Capão Redondo ao se preparar para filmar “Bróder”. Como foi a experiência?
O Capão tem muita tradição, uma cultura própria. A música de protesto, o rap, mudou a forma de pensar de toda uma geração. Eu precisava ver isso de perto para poder interpretar um homem que cresceu lá dentro e representa essa transformação.
Quais são seus próximos projetos, seja no cinema, no teatro ou na televisão?
Estou me preparando para contar no cinema a história do Xingu e dos irmãos Villas Bôas, mais uma vez sob direção do Cao Hamburger (que dirigiu Caio em “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”).
