Entrevistas / Perfis
27-05-2010 ////////
Marcel Souto Maior
"Para mim, ele era o homem que falava com os mortos", conta o autor do livro que deu origem a "Chico Xavier, o Filme"
O que faz uma pessoa escrever mais de 400 livros, vender 30 milhões de cópias e doar toda a renda para instituições de caridade? Foi em busca dessa e de outras respostas que o jornalista Marcel Souto Maior viajou em 1995 para Uberaba, cidade natal de Chico Xavier. Exatos 15 anos depois, no ano do centenário de nascimento do médium, seus livros “As Vidas de Chico Xavier”, biografia do líder espiritual em que se baseia o blockbuster “Chico Xavier” e “Chico Xavier – A História do Filme de Daniel Filho”, ambos da Editora Leya, ocupam lugares de destaque nas listas dos mais vendidos. Já o longa produzido pela Globo Filmes levou, até aqui, cerca de 3,5 milhões de espectadores aos cinemas. Destino, carma? Para Marcel, apenas uma coincidência, assim como o fato de ter nascido no dia 2 de abril, o mesmo em que Chico Xavier veio ao mundo. “É importante que Chico esteja atraindo a atenção de tanta gente. É uma figura que nos leva a repensar nossa vida, nossas escolhas e nosso papel aqui e agora”, acredita ele, que tinha medo do médium na infância.
Você já escreveu três livros sobre o Chico Xavier e, por isso, é reconhecido como um autor de obras relacionadas ao espiritismo. Mas, ao contrário do que isso poderia fazer crer, você não é espírita. O que te levou a escrever sobre o médium?
Foi interesse jornalístico mesmo. Chico escreveu mais de 400 livros, vendeu mais de 30 milhões de exemplares e doou toda a renda dos direitos autorais a instituições beneficentes, movido por uma convicção desconcertante para os céticos: “Os livros não me pertencem. Eu não escrevi nada. Eles – os espíritos – escreveram”. Aos que diziam que, mais cedo ou mais tarde, ele cairia – desmascarado como fraude, por exemplo -, Chico garantia: “Não vou cair porque nunca me levantei”. Morreu na cama estreita de seu quarto simples em Uberaba. Como explicar tanta fé? Existe mesmo vida depois da morte? Os espíritos existem? Em busca de respostas para estas questões, fui a Uberaba pela primeira vez há 15 anos.
Você professa alguma religião? Considera-se uma pessoa religiosa?
Não tenho religião, não freqüento igrejas nem centros espíritas, mas sou fascinado por este universo mágico, misterioso – e tão brasileiro - onde “vivos” e “mortos” se encontram. Chico Xavier, por exemplo, foi um personagem da minha infância. Eu costumava passar férias em Araxá – cidade-natal do meu pai, vizinha a Uberaba - e Chico já era, para mim e para meus primos, o “homem que falava com os mortos”...e dava medo. Quando percorro este universo, também sou movido por estas lembranças da infância. A biografia de Chico - e os outros livros sobre ele – talvez sejam também uma espécie de acerto de contas com este enigma dos tempos de menino. E confesso: adoraria ter a fé que Chico teve...
Nos livros “Chico Xavier – A história do filme de Daniel Filho” e “As Vidas de Chico Xavier” você descreve eventos que, para os espíritas, são explicados pela ação de espíritos. Como você encara esses eventos? É difícil escrever sobre o tema e para leitores espíritas sem ser espírita?
O jornalismo me ajuda a afinar o tom dos livros. Em "As vidas de Chico Xavier", por exemplo, reconstituo os altos e baixos, erros e acertos, quedas e superações da vida de Chico sem fazer juízos de valor. Deixo ao leitor a liberdade - e responsabilidade também - de acreditar ou não nas histórias contadas. Adoto o ponto-de-vista de Chico (sim, ele vivia em contato permanente com o invisível) e abro espaço também para as críticas, investigações, acusações que marcaram toda a sua trajetória. Busco o equilíbrio.
Você acompanhou as filmagens de “Chico Xavier, o Filme”, nas quais ocorreram eventos tidos como paranormais. O que mais te chamou a atenção durante as gravações?
O que mais me chamou a atenção foi o quanto a história de Chico mexeu com a emoção de todos os envolvidos na produção do longa-metragem. Nelson Xavier, por exemplo - ateu, cético, comunista -, define este seu contato com Chico como "avassalador" e "arrebatador". Até hoje, meses depois do fim das filmagens, ele sente a presença permanente de Chico a seu lado. Algumas "coincidências" inexplicáveis no set também intrigaram e impressionaram a equipe - e a mim também.
Na maioria das vezes, filmes feitos com base em livros são considerados inferiores à obra original. Você gostou da adaptação de sua obra?
Gostei muito. Sempre que eu sonhava com a possibilidade de o livro um dia virar filme, eu imaginava 10 cenas que não deveriam ficar de fora. As dez cenas estão na tela - e já apareciam na primeira versão do roteiro escrito por Marcos Bernstein. O filme é muito fiel ao livro - e à trajetória de Chico Xavier. E exibe uma qualidade fundamental: não tem a intenção de doutrinar nem converter ninguém. É um retrato muito honesto e equilibrado de um dos brasileiros mais intrigantes da história.
“Chico Xavier, o Filme” bateu o recorde de público da Retomada em um fim de semana de estreia e os seus livros “Chico Xavier – A história do filme de Daniel Filho” e “As Vidas de Chico Xavier” ocupavam a primeira e a segunda colocação nas listas de mais vendidos na semana passada. A que você atribui tanto interesse nas obras? Como você recebeu a notícia de que seus livros estavam no topo das listas?
Fiquei, é claro, muito feliz quando vi os livros nas listas de mais vendidos. Não só por mim, mas por Chico Xavier, que ganha ainda mais espaço nas listas com "Nosso lar", seu best-seller, e com a publicação da íntegra da entrevista dada por ele na TV Tupi em 1971 (o "Pinga-Fogo", também incluído entre os livros mais vendidos nesta semana). É importante que - no ano de seu centenário - Chico esteja atraindo a atenção de tanta gente. Nas filas de cinema - e nas livrarias - encontramos gente de todas as idades, todas as classes sociais, de todas as crenças ou sem fé nenhuma. Gente que vai ao cinema para "matar a saudade" do Chico que tanto admirava ou para ter o primeiro contato com sua história. Por que tanto interesse? Porque Chico é um personagem único - uma figura que nos leva a repensar nossa vida, nossas escolhas e nosso papel aqui e agora.
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Leia entrevista do diretor Daniel Filho e do roteirista Marcos Bernstein.
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