Entrevistas / Perfis
23-02-2010 ////////
A alma da Cinédia
Filha de Adhemar Gonzaga, Alice dedicou a vida à produtora e à memória do cinema nacional
Se surgiu e vicejou graças ao empreendedorismo e ao idealismo de Adhemar Gonzaga, a Cinédia deve a sua sobrevivência a partir da década de 70 à filha de seu fundador, Alice, que herdou tanto a paixão pelo cinema nacional quanto a obstinação pela preservação de sua história. Diretora da produtora e presidente do Instituto para a Preservação da Memória do Cinema Brasileiro, ela esteve à frente da Cinédia nos últimos 40 anos, nos quais procurou adaptá-la à nova realidade do setor sem descuidar dos milhares de documentos históricos reunidos pelo pai.
“’Cinema’ foi a primeira palavra que aprendi a ler. ‘Seu’ Gonzaga me ensinou para que eu o ajudasse a marcar nos jornais as notícias relacionadas ao assunto. Apesar deste contato intenso com o estúdio, não imaginava que fosse trabalhar nele pois, na época, não era coisa para mulheres”, lembra Alice.
Aos poucos, porém, começou a se interessar pelos filmes, fotos, roteiros, diários e cartas guardados pelo pai. No arquivo, uma mulher poderia trabalhar sem problemas. Quando Adhemar começou a adoecer no início da década de 70, Alice passou a dividir com ele a responsabilidade de gerir a produtora, assumida definitivamente em 1978 após o falecimento do jornalista.
“Este dia mudou a minha vida. Trabalhar na Cinédia me dá uma alegria de viver que eu não teria se tivesse ficado em casa. Seria uma chata como muitas das minhas amigas. Tenho 75 anos e não posso morrer agora porque ainda tenho muito a fazer”, diz ela, que duplicou o acervo da Cinédia, trabalhou com afinco na preservação das películas e publicou os livros “50 Anos de Cinédia”, “Gonzaga por Ele Mesmo” e “Palácios e Poeiras - 100 Anos de Cinemas no Rio de Janeiro”.
Na lista de afazeres está a tentativa de convencer algum carnavalesco a utilizar o material para realizar o seu maior sonho: transformar o clássico “Alô. Alô. Carnaval!” (1936), dirigido e produzido por seu pai, em enredo de escola de samba. “O (carnavalesco) Arlindo Rodrigues chegou a pensar nisso na década de 70. Imagino as alas caracterizadas de Lamartine Babo, João de Barro e Carmen Miranda”, fantasia.
