Entrevistas / Perfis
29-01-2010 ////////
Daniel Filho
Diretor de "Chico Xavier,o Filme" fala sobre religião, fé e revela sua admiração pelo médium que arrasta seguidores
Daniel Filho está prestes a lançar seu novo filme. Depois do estrondoso sucesso de “Se eu fosse você 2” e do lançamento de “Tempos de Paz”, o diretor traz para a telona a história da vida do médium Chico Xavier. Baseado na obra de Marcel Souto Maior, “As Vidas de Chico Xavier”, o longa tem previsão de estreia no dia 2 de abril e traz no elenco Nelson Xavier, Ângelo Antônio e Matheus Costa, todos eles no papel de Chico Xavier em diferentes fases da vida. Tony Ramos, Christiane Torloni, Giulia Gam, Letícia Sabatella, Giovana Antonelli, Paulo Goulart, Cassia Kiss, Cassio Gabus Mendes, entre outros, também participam do filme. Veja aqui o trailer e aqui bastidores da filmagem.
Nesta entrevista, Daniel Filho revela o que o motivou a fazer um filme sobre um líder espiritual mesmo declarando-se ateu. Fala ainda sobre a escolha do elenco, reflete sobre fé, conta seus novos projetos e diz que algumas pessoas sentiram a presença de Chico Xavier nos sets de filmagem.
Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre Chico Xavier?
Em 2004, o Bruno Wainer, da Downtown Filmes, comprou os direitos do livro de Marcel Souto Maior, “As Vidas de Chico Xavier”, e me convidou para produzir o filme. Inicialmente eu não iria dirigir. O Rodrigo Saturnino, da Sony, que também estava no projeto desde o início, me convenceu a fazer o longa-metragem. Ele me emocionou ao usar o nome do Augusto César Vanucci. Achei um grande desafio contar uma história sobre um assunto em que eu não sou um crente. E me fascinou o homem, a história e quem ele envolveu. Era diferente de tudo o que fiz. Eu recebi mensagens de apoio e torcida como nunca recebi em outros projetos. E me senti em um grande estádio, onde todos nós, que estávamos fazendo o filme, tínhamos a responsabilidade de não decepcionar a torcida.
O que você mais admira na trajetória de Chico Xavier?
O Chico Xavier é muito importante. Ele tem dimensão chamada de espiritual, esta vibração que faz com que permaneça vivo. Ele fala de paz, humanidade, carinho. Amai uns aos outros. Chico é uma pessoa que dá esperança de poder viver melhor e isso não é simplesmente uma questão financeira, é viver melhor com você mesmo. É quase que um objetivo analítico e acho que ele passa isso. Chico foi um alento, no sentido afetivo, de milhares de pessoas. Doou sua existência ao bem. É o maior líder espiritual que o Brasil já teve. Foi considerado o mineiro do século, ficando à frente de JK e Pelé. O filme não é uma ode ao Chico Xavier. Tentei ser honesto com minhas convicções e dizer o que eu achava necessário. Não omiti nada do que eu sabia sobre aquele personagem. Não tenho a resposta para o que foi aquilo. Acho que Chico é maior que tudo.
Filmes que falam sobre religião acabam sendo alvo de polêmicas. Você acredita que isso vai acontecer?
Quis ser imparcial. Eu e o Marcel Souto Maior temos o mesmo ponto de vista em relação ao assunto. O Marcel teve a percepção de que aquele era um bom assunto jornalístico. Eu me deixei envolver pela história, quis saber o que fazia este homem ser tão entregue a uma causa, tão honesto e tão coerente em sua missão. Eu não sou espírita, mas sabia que isso podia dar um bom filme.
Você tem dito que é ateu. Como é fazer um filme sobre um líder espiritual?
Sou ateu. Mas sou um homem de fé. Não acredito que há um ser superior que governe nossas vidas, acho que o ser humano é responsável pelos seus atos. Acredito na comunhão do homem com a natureza, no respeito mútuo. Quem emana o bem, recebe o bem. Penso que algumas pessoas possuem, de uma forma ou outra, algum tipo de dom. E acredito no Chico. Se o que ele psicografa é de espíritos, eu não sei. É muito complexo para termos uma explicação. E fé não pergunta e nem pede explicações!
Você vem alternando comédias e dramas. É uma escolha proposital?
Não. Faço filmes que gostaria de assistir no cinema. Procuro sempre uma boa história, independente do gênero.
Como foi a caracterização de Nelson Xavier para ele ficar tão parecido com Chico Xavier?
Nelson me pediu para fazer o papel. Eu o conheço há mais de 40 anos e ele nunca havia me pedido nada, mas quando leu que eu iria produzir o filme, me ligou. Disse que queria fazer o Chico Xavier. Depois que o filme foi correndo, eu não sabia exatamente em qual tempo a história seria narrada. Então, logo pensei no Ângelo Antônio, pois seria mais fácil para caracterizá-lo, se necessário. Quando o roteiro começou a ficar pronto, vi que precisaria de três “Chicos”. Pensei nos dois, Ângelo e Nelson, quase que de forma intuitiva, estava muito fechado neles. Além de se parecerem fisicamente, eles têm texturas semelhantes na emissão vocal, na forma de representar e na maneira que constroem o personagem. E quando marquei a primeira reunião, vi que tinham a mesma altura. Eles têm a mesma altura do Chico.
O que o público pode esperar deste longa?
O público vai ver a história de um homem que muitos acreditavam ser um santo e vai ver o que pode ser considerado ou não santidade. Para mim ele é terreno, mas seu comportamento, sua maneira de agir, de falar e de se comportar com a diversidade, é uma atitude que, normalmente, é consagrada como santa. As pessoas que assistiram ao filme saíram com sentimentos fortes, emocionadas. Elas querem pensar em si próprias, em como viver melhor esta vida.
Você já está envolvido em novos projetos?
Em março, começo a filmar a série “As Cariocas”, que será exibida na TV Globo. No segundo semestre inicio as filmagens de “Roque Santeiro”.
É verdade que houve uma série de eventos incomuns no set de filmagem? Você pode contar algum para a gente?
Algumas pessoas viram, mas acho que isso depende delas. Aconteceu um fato curioso quando os três atores que fazem o Chico estavam em cena. Era a última deles, em um estúdio menor. E sempre costumo dar flores aos atores no último dia. Umas pessoas sentiram o cheiro de rosas e acharam que era a presença de Chico. Eu não disse nada pra não cortar o sentimento de ninguém, acho que as pessoas podem acreditar no que quiserem. Até depois, quando eu entreguei as flores, continuaram a crer nisso. Outra vez, quando fomos filmar em Campinas, em uma fazenda perto de Paulínia, teve um temporal muito grande. Curiosamente não choveu em um raio pequeno onde estávamos. Assim que disse “corta” e nos arrumarmos para sair, começou a chover ali também. Muitos acham que isso foi de Chico.
Leia entrevista com o roteirista Marcos Bernstein e com o escritor Marcel Souto Maior.
Veja o trailer do filme.
