Entrevistas / Perfis
15-01-2010 ////////
Pedro Cezar
'Manoel é um santo disfarçado de traste' diz diretor do documentário
O poeta Manoel de Barros é o personagem do documentário “Só Dez por Cento é Mentira”, do diretor Pedro Cezar (trailer aqui). O longa, que ganha as telas brasileiras no dia 22 de janeiro, narra a trajetória deste poeta sul-mato-grossense e alterna depoimentos dele com versos de sua obra. Manoel de Barros tem hoje 91 anos, 20 livros publicados e já ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia em 1989, entre outros prêmios por sua obra. Confira a entrevista sobre o filme com Pedro Cezar.
Porque falar sobre Manoel de Barros para o público brasileiro?
A língua que todos nós utilizamos diariamente pra dar bom dia, celebrar, reclamar, informar, dormir e sonhar talvez esteja cansada das mesmas sintaxes e dos mesmos arranjos. De repente chega um sujeito falando do “sotaque azul das águas” ou dizendo “ontem choveu no futuro” ou ainda “as violetas me imensam”... Achei que isso podia interessar.
Você acha que o Brasil não é um país de leitores de poesia, depois de fazer o documentário?
O Brasil é um país muito grande e de imensa diversidade cultural. Não dá para fazer esse tipo de generalização. Independente das estatísticas oficiais de leitores de livros do gênero, a poesia não morrerá nunca. A boa poesia continuará sendo uma forma de expressão impactante. O verso “ajeito nuvens no olho” sempre será o mais puro “design de linguagem”. “Poesia é voar fora da asa”!
Porque a frase “Só dez por cento é mentira” para o documentário?
Manoel escreveu:
“Tenho uma confissão a fazer:
Noventa por cento do que escrevo é invenção
Só dez por cento é mentira”.
Estou cansado de ver histórias entediantes e mal encenadas tentando se legitimar pelo “baseado em fatos reais”. Como fiz um documentário baseado em fatos irreais, achei o título uma provocação adequada.
Porque ‘desbiografia’?
Pelo mesmo motivo, basicamente. Qual é a graça em montar uma cronologia biográfica enumerando os fatos e as datas oficiais? Estamos falando sobre um poeta “desimportante” e absurdamente original. Um escritor que brinca e “moleca” o idioma para que a nossa língua não morra pelo uso dos clichês.
Qual é o corte temporal do documentário? O que ele mostra da vida do poeta?
Mostra parte da obra escrita, clipes que fazem alusões imagéticas ao seu universo, depoimentos inéditos do Manoel, o lugar onde ele fazia “vaginação com mulher de sete peitos”, o morro “que entorta a bunda da paisagem”. Tem invenção, encenação e mentira.
Como foi a produção do filme?
Nossa maior dificuldade foi fazer um filme imagético, divertido, verossímil e infiel ao mesmo tempo. Passamos por 11 cortes. Um processo de dois anos para que o filme não fosse discursivo nem cabeçudo. Vou morrer acreditando que conteúdo e chatice não precisam ser sinônimos.
O Manoel de Barros aprovou a ideia de fazer um documentário sobre ele? Ele colaborou ou você teve alguma dificuldade em relação a isso? Ele não gosta muito de aparecer, não é verdade?
Toda a saga que envolve essa dificuldade é mostrada no filme. Prefiro que o assistam para não chatear os leitores com eventual redundância.
O que mais te surpreendeu no poeta?
Sua simplicidade ao se dirigir a qualquer pessoa. A distração com que ele trata a “tremedeira” do fã que chega perto. Toda a equipe que entrou comigo em sua casa saiu de lá elevado. O Manoel é um santo disfarçado de traste. Bebe água, lê jornal e “compra pão às 6 da tarde” nos dando a ilusão de que somos do mesmo planeta.
Você viu “Caramujo Flor”, premiado curta de Joel Pizzini sobre Manoel?
Vi e gostei. Toda obra produzida sobre Manoel de Barros me interessa. Coleciono entrevistas e artigos sobre ele e guardo tudo numa pasta que vai passando por diversos endereços.
O que você espera que o documentário traga para o público brasileiro?
Se trouxer encantamento, diversão e uma dose abstrata de conhecimento sobre Manoel de Barros, me sentirei feliz e recompensado.
