Entrevistas / Perfis
15-01-2010 ////////
Lírio Ferreira
Diretor aposta novamente no documentário e revela a história de Humberto Teixeira
Música parece ser o forte de Lírio Ferreira, diretor de cinema que acaba de lançar “O Homem que Engarrafava Nuvens” (trailer aqui), que estreia nesta sexta, dia 15. O longa mostra a obra de Humberto Teixeira, conhecido como o ‘Doutor do Baião’. Ao lado de Luiz Gonzaga, ele escreveu “Asa Branca”, música que marcou a cultura popular brasileira e ainda deixa a sua influência mais de 60 anos após ter sido escrita. Lírio Ferreira tem dois filmes de ficção premiados no currículo: “Baile Perfumado” (1996) e “Árido Movie” (2006). Após “Cartola”, documentário que narra a vida do poeta do samba, ele volta a suas raízes do nordeste para mostrar o que é que o baião tem.
Como foi a transição da biografia de Cartola para este filme? Nos dois você fala sobre grandes personagens da música brasileira...
Costumo dizer que não foi de propósito. Foi a propósito. Uma coincidência, mas acabou sendo bacana. Não fui eu que inventei os dois filmes. Acabei caindo nos dois filmes, fui convidado. São filmes parecidos, apesar das diferenças. Os dois vêm de uma tradição machadiana, dos fantasmas contarem histórias. O “Cartola” começa com imagens do enterro dele e “O Homem que Engarrafava Nuvens” começa com a Denise indo visitar o túmulo do pai. Os dois mostram logo no início que são os fantasmas que vão narrar. O “Cartola” é um filme mais escuro e sombrio. “O Homem que Engarrafava Nuvens” é mais colorido, mais laranja. Acho que um filme não existiria se não fosse o outro.
Como você descobriu Humberto Teixeira? E quando?
Sou de Recife e escutei baião a minha vida toda. É a música oficial do sertão. Eu sabia que o Humberto Teixeira era parceiro do Luiz Gonzaga, mas não tinha ideia do impacto que a parceria deles causou na música popular brasileira.
O filme fala apenas da face musical do Humberto Teixeira ou dos outros aspectos dele também, como o lado intelectual?
O filme mostra não apenas a face musical dele, apesar desta ter preponderância, mas também mostra o lado intelectual dele.
Como você avalia a importância de Teixeira para a música brasileira? E para a cultura nordestina, de forma mais ampla?
Ele foi fundamental. O encontro dele com o Luiz Gonzaga em 1945 dá uma guinada na MPB. O Gilberto Gil tem uma frase no documentário que acho ótima. Ele diz que existem duas dinastias na música brasileira, o samba e o baião. Todas as pessoas que aparecem dando depoimento no filme em algum momento da carreira já gravaram alguma música do Humberto Teixeira.
E porque o título “O Homem que Engarrafava Nuvens”?
O nome veio porque o Humberto uma vez deu uma entrevista a um pesquisador cearense e disse que não passava mais o tempo compondo, mas engarrafando nuvens. Ele morava em São Conrado, era bastante arborizado e a casa acordava com as brumas da manhã. Então ele dizia isso, que ficava engarrafando as nuvens. Gostamos dessa ideia, achamos que combina com a essência do Humberto.
Como você avalia o resultado do trabalho?
Fico muito feliz com o resultado porque as pessoas saem do cinema sensibilizadas e emocionadas. Muitos agradecem. O filme tem uma emoção que toca as pessoas, mas quem tem que avaliar é o espectador.
Quais foram suas maiores dificuldades ao longo das filmagens? Em quanto tempo você conseguiu filmar e produzir o filme?
A equipe foi ótima e me deu uma segurança grande para fazer o filme. Começamos com o projeto em 2002. A maior dificuldade que tivemos foi com as questões de direitos autorais e direitos de imagem. Outra dificuldade foi o lançamento. O Brasil tem poucos cinemas. O filme está pronto desde o ano passado e tivemos que esperar para lançar.
Você pretende voltar a fazer ficção? Você tem dois longas bem elogiados...
Meu próximo filme é de ficção e se chama “Sangue Azul”. Estou um pouco cansado de trabalhar com fantasmas. Quero trabalhar agora com pessoas de verdade, atores que se mexam. O filme ainda está em fase de captação e ainda não sabemos quando vai estrear.
Você começou pegando Chico Science e Fred Zero Quatro para lembrar-se de Lampião e agora vai foi à musica nordestina mais tradicional, ou seja, a gênese do que tocavam os caras do Mangue Beat. Como aconteceu este caminho? Fale um pouco sobre isso...
A música sempre foi presente nas minhas produções, para ilustrar ou criar um clima. Fiz muitos clipes de música também. Apesar de eu ser um péssimo músico, porque canto extremamente mal, a música me ajudou a pensar o cinema.
