HOME LOGO

Entrevistas / Perfis

Denise Paraná e Rui Ricardo/Divulgação

30-12-2009 ////////

Denise Paraná

Co-roteirista e biógrafa de Lula fala sobre adaptação de seu livro para o cinema

Porque você decidiu fazer a sua tese de doutorado sobre o Lula? O que mais te atrai na história dele?

Em 1990, eu estava escrevendo meu doutorado em História na USP sobre outro tema e, ao mesmo tempo, era assessora de Lula. Um dia propus: “Lula, vou jogar fora anos de trabalho de doutorado se você topar me dar entrevistas. Começo do zero e escrevo sua biografia”. Ele respondeu: “Olha, você sabe que não tenho tempo para nada. Se for para puxar meu saco, me elogiar, não vou parar de trabalhar para dar entrevistas. Mas se você me ajudar a me entender, entender minha história, aí eu topo”. Expliquei que era exatamente isso que eu queria, até porque um doutorado exige enorme honestidade em relação ao personagem estudado.

Em quanto tempo você fez todas as entrevistas?

Demorei em torno de três anos para fazer as entrevistas do meu doutorado que resultaram no livro “Lula, o filho do Brasil”. Isso foi no início da década de 90. Agora fiz novas pesquisas, fui para o sertão, entrevistei toda a família do Lula mais uma vez e ouvi novos personagens. Colhi histórias interessantíssimas que não conhecia, pesquisei também a biografia de dona Lindu. Então, a partir desta nova pesquisa, escrevi “A história de Lula, o filho do Brasil” (Editora Objetiva), que, ao contrário de minha tese de doutorado, não é acadêmico.

E depois, como surgiu a ideia de transformar a história em livro?

Ah, desde a primeira entrevista com Lula já tinha a certeza de que aquilo tudo tinha que ser publicado, porque entender aquela história é entender o Brasil.

Você teve que escutar mais alguém para fazer a adaptação da tese para o livro? Ou o texto é o mesmo?

O novo livro que escrevi trata do mesmo tema, a biografia do Lula, mas é bem diferente da minha tese. Tem 140 páginas (minha tese tem 530) e utiliza técnicas de ficção para contar a história real, além de trazer informações que não estão contidas na tese.

Você tinha ideia de que o livro se tornaria mundialmente conhecido?

Já imaginava isso porque a história do Lula tem dois aspectos importantíssimos. Se por um lado sua trajetória pessoal é absolutamente única, por outro, a história de suas origens, de sua família, traduz com perfeição a história de toda a nação brasileira. Eu sempre dizia que a biografia de Lula era um roteiro cinematográfico pronto.

Já pensava em fazer um filme com a história?

Ter a tese transformada em filme certamente é mais do que sonha qualquer doutorando. Na verdade, quando ouvi as primeiras entrevistas entendi que aquilo era cinema. Era puro cinema. Era dramaturgia da mais alta qualidade que se desenrolava em ambientes, cenários cinematográficos. Havia uma plasticidade incrível naquelas descrições que Lula e seus irmãos faziam. Por isso eu estava sonhando com este filme há 20 anos. Posso dizer que ver a Glorinha (Pires) e o Rui (Ricardo Diaz) na tela é mesmo a realização de um sonho.

Que personagens mais te fascinaram na sua pesquisa?

Os personagens são todos fascinantes, mas a dona Lindu, mãe do Lula é realmente apaixonante. Dona Lindu é a mulher que eu gostaria de ser um dia.

Você gostou do resultado da adaptação? O que faria diferente?

Gostei do resultado da adaptação, mas é preciso lembrar que cinema é outra linguagem, outra lógica. Literatura e cinema são coisas bastante distintas. É uma pena que algumas pessoas queiram que o filme não seja cinema, mas uma espécie de fichamento do meu livro. Livro é livro, filme é filme. O livro é meu, o filme é do diretor, é do Fábio Barreto. O filme é a leitura que o Fábio fez do meu livro. Sinto que ele tentou preservar ao máximo as informações contidas no meu livro, mas a obra cinematográfica tem sua autonomia e é de autoria do diretor, neste caso do Fábio.

E o que acha de o filme ser rodado com o Lula ainda na presidência?

Se o filme tivesse o interesse de produzir uma imagem bastante ácida do presidente, acredito que não ouviríamos muitas críticas, pelo contrário, boa parte da imprensa aplaudiria. Como o filme tenta ser realista — e, neste caso, ser realista é contar uma bela história de superação –, alguns jornalistas e a oposição reclamaram. Duvido que estas mesmas pessoas tenham considerado inadequado o filme que foi feito sobre o presidente Bush, quando ele ainda estava no poder, o “W”. Lá é bonito, aqui é feio? Tive informações de que já estão fazendo uma cinebiografia do Obama. Duvido também que a maioria destas pessoas críticas diga que o Obama não pode ser cinebiografado enquanto estiver no poder. Mas tudo bem. O que importa mesmo é que Lula está no final do mandato e não é candidato a nada. O filme não tem papel eleitoral. E a história que contamos precisava ser contada porque pertence a toda a nação.

Esta é a sua primeira experiência no cinema, certo? Gostou da experiência? Quais foram suas maiores dificuldades?

Já tinha trabalhado em documentários para a televisão, mas foi a primeira vez que fui co-autora de um roteiro de ficção. Foi uma delícia trabalhar com cinema. As maiores dificuldades estavam sempre relacionadas à necessidade de ser fiel a uma história real e, ao mesmo tempo, trabalhar com técnicas de dramaturgia.

Como foi trabalhar com a equipe, em especial com o Fábio Barreto?

O Fábio é muito sensível, ouve todo mundo, é atencioso. Além disso, como ele é uma pessoa afetiva, fez questão de criar um clima de afeto e respeito tanto durante a elaboração do roteiro quanto durante as filmagens. A Paula Barreto, produtora, e o Fábio, diretor, contrataram uma equipe que, do ponto de vista técnico, era excelente, mas também que era composta de gente bacana, agradável. Foi uma experiência muito boa.

Agora você é uma mulher de cinema? Vai seguir neste caminho?

Fui convidada para dirigir um documentário no ano passado nos Estados Unidos. Trouxe de lá material bruto excelente que deve dar origem a um documentário em 2010. O filme trata de uma experiência pioneira de mapeamento cerebral de médiuns em estado de transe e foi feito num laboratório de uma grande universidade norte-americana. Os médiuns analisados eram brasileiros, psicógrafos como Chico Xavier. Os resultados foram impressionantes.
 

Compartilhe! Envie para um amigo!