Entrevistas / Perfis
29-01-2010 ////////
Raul Seixas - O Início, o Fim e o Meio
Maluco beleza é tema de documentário de Walter Carvalho
Walter Carvalho gosta de desafios. Depois de adaptar um livro de Chico Buarque para as telas, aceitou o convite para dirigir um documentário sobre um dos maiores nomes na música popular brasileira, Raul Seixas. O longa mostra histórias inéditas e montagens que prometem deixar os fãs de Raul emocionados. As filmagens aconteceram entre abril e agosto deste ano. Da Bahia, a equipe seguiu para o Rio de Janeiro, São Paulo, Suíça e Estados Unidos. “Raul, O Início, o Fim e o Meio” tem estreia prevista para o segundo semestre do próximo ano.
Veja AQUI vídeo com as primeiras imagens do filme
Como foi a sua experiência de adaptar um livro do Chico Buarque?
Adaptar um livro como Budapeste é uma tarefa extremamente complicada, porque a literatura do Chico não trabalha com clichês. Quando fui convidado para dirigir o filme, não tinha lido o livro. Pedi um tempo para ler. Li e vi que era muito difícil e que o desafio era muito grande. Por isso aceitei, porque fácil você compra no supermercado. É uma literatura que convida o leitor a uma participação no pensamento e no desenvolvimento do livro.
Quais foram seus maiores desafios nesta adaptação?
Uma das coisas que mais tive o cuidado foi de não fazer um filme que tivesse começo, meio e fim necessariamente nesta ordem. Uma história que fosse contada não exatamente pelo que está no livro, mas pelo viés que o livro apresenta. Digamos que eu tenha danificado as palavras sem perder o viés da literatura.
Você gostou do resultado de “Budapeste”? E a bilheteria, foi boa?
Gosto como autor, como diretor do filme. Se tivesse que fazê-lo de novo faria do mesmo jeito. A bilheteria emplacou 90 mil espectadores. Para mim é um resultado excelente. O filme não era uma proposta blockbuster, com uma visão puramente comercial. O objetivo foi fazer um filme com dignidade e que fosse generoso com o espectador e que o convide a pensar junto. O lançamento foi espetacular em termos mercadológicos. Fiquei muito feliz com o resultado. E ninguém nunca sabe direito e nem exatamente o motivo que um filme faz sucesso e outro não.
Você é fotógrafo de cinema e virou diretor. Como você é com a fotografia dos filmes que você dirige?
Não sou um fotógrafo que virei diretor. Sou um fotógrafo que dirijo. Dos filmes que dirigi, “Cazuza” e “Janela da Alma” têm a minha fotografia. Muito embora em “Cazuza” a fotografia tenha sido quase que dividida, merecia até um crédito do Lula Carvalho. A relação que tenho com o fotógrafo, no filme que estou dirigindo, é a mesma que tenho com o diretor de arte, com o montador, com a figurinista, com o som. O cinema não é uma coisa de um diretor. São várias correntes, como em uma orquestra em que você tem um solista, as cordas, os metais, mas você tem o maestro. Mas o maestro sem orquestra não funciona e uma orquestra sem maestro não se conduz. Desafio mais a participação do que soluções encontradas por mim. Até porque dirigindo o filme não posso ficar preocupado em encontrar soluções para a fotografia, para a arte, para o som e para a produção. E tudo tem que ser muito criativo. Converso com cada um dos departamentos e mostro os conceitos, os argumentos e as contribuições chegam. É preciso estar muito esperto e muito atento para que essas contribuições não passem por você sem que você perceba. Tem que ficar muito atento ao acaso também. Ajo com o fotógrafo como gostaria que os diretores agissem comigo, que me dessem os conceitos, as ideias e opiniões e me abram espaço para que me manifeste dentro daquilo. Acho que quando faço isso, ele na posição do fotógrafo e eu na posição do diretor, quem está ganhando com isso é o filme, porque você tem mais uma cabeça pensando naquela espinha dorsal. O diretor que diz ‘ quero assim’ está limitando a criatividade das pessoas no filme dele. O diretor que diz ‘faz você’ está jogando fora a chance de cruzar com as ideias que o profissional supostamente deveria ter. O diretor que diz ‘o que você acha desse conceito e o que você pensa a respeito dele?’, esse sim é o que mais me atrai porque ele está me convidando a pensar com ele. Este seria o perfil do diretor que me interessa pessoalmente. Então me esforço, quando estou dirigindo, para ser essa pessoa também.
Como surgiu o projeto do documentário do Raul?
Foi um convite do distribuidor e do produtor, o Denis Feijão, que tem essa ideia há muito tempo. Ele tem uma parceria com o Jorge Peregrino, que é o presidente da Paramount no Brasil. Os dois me convidaram para que eu fosse o diretor desse filme. Topei o convite, já fiz as entrevistas e o filme está em fase inicial de montagem.
Como foi realizada a pesquisa?
A pesquisa envolveu desde a literatura publicada sobre o Raul, livros, revistas, jornais e entrevistas, como a internet, pessoas da família, mais precisamente o irmão e o primo do Raul, que se chama Plínio, duas tias, um tio e os amigos. O documentário procura encontrar como foi essa trajetória do Raul. Procurei esta resposta através das pessoas que ouvi, que já eram parte da pesquisa também. Além de arquivo de televisão, arquivos particulares, como fotos, além das três ex-esposas. Ele teve cinco mulheres, mas ele casou e teve filho com três. Estas pessoas foram essenciais na tentativa de chegar perto do que chamo de trajetória do Raul. Outro ponto importante na busca deste perfil foi a própria música do Raul, que é uma forma de entender esse personagem.
Você entrevistou o Paulo Coelho. Eles tinham uma relação conturbada. Como era esta relação?
No início não. No início a relação era de amizade e de parceria muito forte. Depois é como o Paulo mesmo fala ‘toda a relação amorosa é uma relação de conflito’. Ele mesmo compara isso. Teve um momento da vida que eles se separaram e depois tentaram se reencontrar.
Porque houve o conflito entre eles? Você consegue dar exemplos?
Fiz essa mesma pergunta para o Paulo Coelho e ele me respondeu comparando a relação deles com um casamento. Tem uma hora que surge uma discórdia ou uma discussão de ponto de vista. Acho que não tem muita explicação do por quê dos Beatles terem se separado ou porque tantas duplas famosas não foram até o fim.
Qual a sua opinião sobre isso, depois de filmar o documentário?
Acredito que eram duas personalidades muito fortes e que elas se completaram. O Paulo me afirma que ele só é o que ele é hoje por causa do Raul. Ele diz que aprendeu muito com o Raul, sobretudo sobre a comunicação. Ele conta que o Raul pegava as letras enormes e dizia: ‘Isso não vai tocar no rádio nunca’, então ele saia cortando e reduzindo. A minha opinião a respeito desta parceria era de que um não existia sem o outro, na verdade. Acho que a sociedade alternativa é fruto destas duas pessoas que se juntaram. Claro que tinha uma influência clara da parte do Paulo, que depois o Raul foi conhecer, mas como você teria ideia do que era a sociedade alternativa se o Raul não cantasse isso no rádio? Um completa o outro. Por outro lado, o Raul sozinho não teria essa ideia de fazer a sociedade alternativa sem conhecer as pessoas que foram apresentadas a ele pelo Paulo Coelho.
Você gostou do resultado das entrevistas que você fez?
Gostei muito. Fiz mais de noventa entrevistas e tem mais de 400 horas no total. Fizemos entrevistas em Salvador, na Bahia, em São Paulo, no Rio, na Suíça e nos Estados Unidos. Se somarmos todo o material temos umas quatro ou cinco semanas ao todo de trabalho. Em Salvador, fiz reconstituições. Quando o Raul surge na década de 70 é com uma banda, que se chama “Raulzito e seus Panteras”, e depois virou “Raulzito e os Panteras”. O baterista, o baixista e o guitarrista desta banda estão vivos. Juntei-os no palco onde eles se apresentavam e através de projeções, coloquei o Raul no meio deles e eles tocaram as músicas da época. Depois do Brasil, fomos para a Suíça entrevistar o Paulo e de lá nós fomos para os Estados Unidos entrevistar as ex-esposas. Entrevistamos duas ex esposas e as filhas lá.
Como era a relação dele com as esposas?
Era muito tumultuada. O Raul teve cinco casamentos e morreu sozinho. Ele teve uma paixão muito grande na adolescência, a Edith, e é com ela que ele casou. Foi com ela que ele teve a primeira filha, a Simone, e em um dado momento, quando a menina já estava com dois anos, ele se casa com a Glória. Em seguida a Edith vai embora para os Estados Unidos. E essa é a grande paixão dele de acordo com os depoimentos. Tenho um depoimento da mãe dele de arquivo que diz que a grande paixão é a Edith. Ele não viveu mais de quatro anos com mulher nenhuma. Em menos de quatro anos ele se casa com a Tânia. A Kika é contemporânea da Tânia, e depois veio a Lena. A Kika foi outra grande paixão, com quem ele tem uma filha maravilhosa, a Viviane. Ele teve uma vida matrimonial complicada. Um cara que morre aos 44 anos e tem cinco casamentos e três filhas, dá para perceber que é uma situação conflitante, talvez com ele mesmo.
Você é fã do Raul?
Sou. Gosto muito do Raul, sobretudo do caráter libertário, do caráter provocador, da irreverência que o Raul trazia com ele. E o artista libertário, o artista que queria a liberdade, que queria cantar sem censura. O período fértil dele foi o período da censura. Em 1973, ele surge com ‘Let me sing’, que mistura Elvis Presley com Luís Gonzaga.
Qual é, para você, o maior legado que ele deixou para a sociedade e para a música e o rock brasileiro?
Ele era um camarada que estava um pouco à frente do seu tempo. Não conseguiria escapar desta resposta sem dizer o óbvio. Acho que foi a trajetória libertária através da música e através do seu comportamento. Este é o maior legado que o Raul deixa para nós.
Qual a sua expectativa para o lançamento do filme e qual você acha que será a repercussão dele?
Minha expectativa é lançar no segundo semestre do ano que vem. Espero que a repercussão seja a melhor possível. Qualquer lugar que você vai, tem sempre alguém da plateia que pede para ‘tocar Raul’. O público quer que a pessoa que está no palco toque o Raul. Em São Paulo, por exemplo, é feita uma reunião no aniversário da morte dele. Eles fazem uma reunião na frente do Municipal, uma manifestação gigantesca de 4 mil pessoas e vão em passeata quando anoitece, até a Sé, todos com elementos da iconografia do Raul e com o emblema do Raul, os óculos, o cabelo, a barba, a jaqueta de couro, e eles vão em passeata cantando juntos, fumando, bebendo, se divertindo, e não tem uma organização por trás disso. São eles que se juntam.
E qual é o público do Raul Seixas hoje?
Acho que o Raul tem um público muito cativo e essa é uma curiosidade. Existem vários jovens hoje, na faixa dos 15 aos 20 anos, que adoram o Raul e não conheceram ou jamais o viram. Tenho um filho de 19 anos que é fã do Raul. Meu filho mais velho, de 32 anos, quando era garoto, ouvia Raul todo dia. Ouvi mais Raul pelo meu filho mais velho, entre seus 15 e 20 anos, do que sozinho. Ao mesmo tempo existem pessoas na minha idade, da época do Elvis Presley e dos Beatles, fãs do Bob Dylan, e que adoram o Raul. Sou uma delas. Então o público do Raul é uma mistura de gerações e paradigmas. São duas gerações distantes uma da outra e ao mesmo tempo centradas na figura icônica do Raul. Espero que essas pessoas prestigiem o ingresso e estou trabalhando para isso. Não quero fazer um filme fazendo concessões, quero fazer um filme que revele um pouco para estas pessoas, sobretudo as que não conheceram o Raul, um pouco desta trajetória que não foi exposta e nunca foi revelada.
