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Entrevistas / Perfis

Entre a Luz e a Sombra/Divulgação

27-11-2009 ////////

Luciana Burlamaqui

Jornalista lança seu primeiro longa-metragem

Porque você decidiu deixar o jornalismo por um tempo de lado e se dedicar às causas sociais?
Na verdade sempre cobri temáticas sociais como repórter, principalmente em TV, mas sentia uma necessidade de aprofundá-las e não encontrava espaço nos telejornais para fazer isso com o tempo que gostaria. Depois de morar quatro anos em Nova York e trabalhar com o videojornalista Jon Alpert, que desenvolveu o formato da equipe de uma única pessoa, no início da década de 70 nos Estados Unidos, voltei para o Brasil em 1997 com o desejo de trabalhar com documentário de forma independente. Aos poucos sai do jornalismo, mas continuei produzindo programas sobre as desigualdades sociais no Brasil para produtoras estrangeiras com exibição na BBC World e TV Arte (França). Em paralelo comecei a trabalhar na ONG Projeto Aprendiz em São Paulo para ensinar vídeo para jovens.
 

Como você avalia esta decisão?
Foi um processo natural, tinha uma ânsia por sair com a câmera na mão atrás de uma história com liberdade e tempo. Ninguém financiaria algo assim em uma TV. Encontrei no documentário uma forma de expressão que me encantou.
 

Como o jornalismo te ajudou na sua nova vertente de trabalho?
Em tudo. Tenho a alma de repórter que corre em minha veia, só que agora misturando a realidade como o subjetivo.

Leia aqui a matéria sobre o documentário.
 

Quando você conheceu o grupo 509-E?
Eles foram até o projeto Aprendiz, onde eu trabalhava, e teriam encontros com jovens da FEBEM para debates sobre o mundo do crime e a possibilidade de abandoná-lo. Ofereci-me para documentar os encontros, mas em pouco tempo percebi que a história estava além. Acompanhei-os nas suas entradas e saídas do Carandiru junto com a atriz Sophia Bisilliat, voluntária no sistema carcerário por 20 anos, que foi quem descobriu o grupo e os ajudou a lançar o primeiro cd da banda.
 

Quando surgiu a decisão de transformar esta história em filme?
A ideia inicial era uma série de cinco episódios para TV, cada um deles com dez minutos, sobre os encontros. Como não vingou, por questões de orçamento, continuei gravando. E aí começaram a acontecer cenas na minha frente, do cotidiano de todos eles, que revelavam muito sobre a crise social brasileira e também sobre a essência luminosa e sombria do ser humano. Em pouco tempo percebi que tinha nas mãos algo especial, continuei gravando e algumas pessoas que assistiram ao material bruto logo no início me alertaram: “Isto não é mais jornalismo. É cinema”.


Como você avalia o resultado do seu trabalho no documentário “Entre a Luz e a Sombra”?
Foram nove anos de produção, sete de gravação e cerca de dois anos e meio de edição – esta feita junto com Matias Lancetti e Daniel Rubio. Nosso maior objetivo era contar essa história sem emitir juízo de valor, sem dar respostas, mas trazendo à tona nossas ambigüidades individuais e a possibilidade de nos perceber neste contexto de violência e desigualdade social no Brasil. Não como espectadores, mas atores sociais.


Como está a repercussão junto ao público? O documentário já participou de onze festivais até agora.
Até o momento foi maravilhoso. Queríamos que a investigação sobre a violência no Brasil e suas possíveis causas trouxesse o público para essa discussão, não pelo intelecto puro, mas muito pelo sensorial e pelas emoções. Por todos os lugares por onde o filme passou, Holanda, Bélgica, França, África e no Brasil, as pessoas saíram mexidas, tocadas e mobilizadas. Recebemos e-mails quase que diariamente de pessoas de todo o Brasil, ao longo dos festivais que ele participou até o momento, falando de uma vontade em participar de uma mudança no Brasil para um caminho de cultura de paz e não violência.


Como foi ganhar os prêmios de público na 4ª Mostra Cinema de Direitos Humanos na América do Sul e o Prêmio de Público de Melhor Documentário e Menção Especial do Júri no 17º Festival de Cinemas e Culturas da América Latina de Biarritz? A que você acha que deve estes prêmios?
Esses prêmios do público deram sentido ao nosso trabalho e a certeza de que o filme cumpre com tudo o que desejei ao longo de todos esses anos. A reação das pessoas é parecida, uma mistura de dor e até raiva pela realidade da desigualdade social no mundo e uma vontade de mudar tudo isso, muito inspirada na força que os personagens passam.


Você pretende voltar para o jornalismo ou seguir no cinema?
Pretendo seguir com documentário, cinema e literatura, já que adoro escrever. Também quero terminar um documentário que está interrompido também sobre a violência e entrar na ficção. Estou no começo de um projeto, ainda embrionário de uma trilogia de curtas sobre o tema do afeto.
 

O que o público pode esperar do documentário?
Um mergulho profundo num Brasil luminoso e sombrio.
 

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