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Entrevistas / Perfis

Cacá Diegues

13-11-2009 ////////

Cacá Diegues

Diretor elogia a experiência de filmar "Cinco Vezes Favela" e adianta novidades de "O Grande Circo Místico"

Um dos maiores nomes do cinema brasileiro, Cacá Diegues está mais ativo do que nunca. Enquanto cuida com carinho da finalização de “Cinco Vezes Favela, Agora por Nós Mesmos" (veja aqui imagens dos bastidores), finaliza o roteiro de sua adaptação para o cinema de “O Grande Circo Místico”. Nesta entrevista, ela fala destes projetos, festeja a volta do amigo Arnaldo Jabor à ativa e avalia a produção cinematográfica nacional.

O FILME. "Cinco Vezes Favela, Agora por Nós Mesmos" tem sido uma experiência extraordinária. Totalmente escrito, dirigido e realizado por jovens cineastas moradores de favelas cariocas, é a primeira vez que se faz um filme de favela dando voz a seus moradores. Não é um filme feito do ponto de vista do traficante, da polícia ou do viciado, como já fizemos tantos no Brasil. Mas um filme feito do ponto de vista do morador, que não tem nada a ver com esses tres personagens.

PROBLEMAS. A maior dificuldade foi conseguir recursos para fazer o filme. Levei muitos não nesses últimos quatro anos em que tentei levantar recursos para que os cineastas moradores de favelas fizessem o filme nas condições em que faço os meus. Para minha surpresa, mesmo as fontes oficiais de recursos não foram generosas; pelo contrário, tratavam o projeto sempre como uma espécie de aventura no máximo bem intencionada, mas sem possibilidade de êxito. Como se esses jovens não fossem capazes de fazer filmes de qualidade. Mas o empresário Eike Batista completou definitivamente o que nos faltava para o orçamento do filme, se tornou o principal patrocinador e encerrou esse nosso calvário de quatro anos.

TALENTO. Como já trabalho e tenho amizade com esses grupos há algum tempo, tive poucas surpresas. O projeto apenas me confirmou seu empenho, talento e originalidade. São filmes com um humor especial, um horizonte de esperança e um cuidado moral extremo. Como eles próprios são. Devemos terminar a edição do filme até o fim do ano. Ele ficará pronto em janeiro, para um lançamento ainda no primeiro semestre do ano que vem. Seria injusto com os outros. Uma das características deste filme é a da colaboração mútua, da vontade de que todos acertem. Este é um filme solidário.

TRABALHO PRÓPRIO. Começo o ano que vem as filmagens de "O Grande Circo Místico", baseado em poema de Jorge de Lima, que Naum Alves de Souza transformou recentemente em balé com música de Edu Lobo e Chico Buarque. Mas nosso filme não será um balé, nem um musical, mas sim uma saga secular sobre o amor na história de uma família. Mas, é claro, pretendo usar a música do balé. Estou terminando o roteiro final agora, em parceria com George Moura.


VOLTA DE JABOR. O Jabor estava fazendo falta ao cinema brasileiro e o cinema brasileiro fazia falta a ele. Acompanhei apenas um dia de filmagem, que me impressionou bastante. Mas li o roteiro original e conversei um pouco com ele sobre o que pretendia fazer. Trata-se certamente de um reencontro amoroso que, tenho certeza, será muito bem sucedido.

COMÉDIA É A SOLUÇÃO? Não sei dizer. O público é sempre uma coisa muito misteriosa, muda sempre e rapidamente de gosto e preferência, é difícil adivinhar o que ele deseja. Por isso mesmo, é melhor nem se preocupar muito com isso. De qualquer modo, é verdade também que filmes como “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e “Meu nome Não é Johnny”, também fizeram imenso sucesso de público e não são exatamente comédias românticas. No cinema, pode-se fazer de tudo.

OBRA EM DVD. Não existem DVDs de meus filmes antigos, até mais ou menos “Bye Bye Brasil”. Esse formato não existia quando os filmes foram feitos e, no momento, estamos em busca de recursos para restaurar seus negativos em estado precário, como é o caso de “Chuvas de Verão”. Quando eu conseguir esses recursos, iniciamos o restauro e pomos na rua os DVDs de cada um. Espero que isso não demore muito, ando muito angustiado com essa hipótese!

DUELO DE GERAÇÕES. Não sei, não presto muita atenção a isso. Se houver rancor, tenho pena; rancor não serve pra nada, a não ser pra agoniar e atrapalhar a vida de quem o tem. Acho que estamos vivendo um dos momentos mais ricos da história do cinema brasileiro. Talvez até o mais rico. E isso se deve justamente aos jovens cineastas que surgiram nesses últimos anos. Não há razão nenhuma para eles terem rancor e não acredito que ele exista.

INDÚSTRIA. Acho que você sente isso por causa da quantidade maior de filmes sendo feitos. É claro que com quase 100 filmes por ano, o cinema brasileiro tende a se tornar uma economia estável e permanente. Se isso acontecer, o número de maus filmes crescerá também, como acontece em qualquer outra economia cinematográfica no resto do mundo - é impossível produzir 100 ou mesmo 50 obras primas anuais. Mas o número de bons filmes crescerá também e isso compensará a frustração com os outros. É sempre assim, em qualquer lugar do mundo, em qualquer indústria cultural que você quiser mencionar.

Leia sobre a seleção de "Cinco Vezes Favela" para o Festival de Cannes.
 

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