Entrevistas / Perfis
02-02-2012 ////////
Rodrigo Santoro
"Foi uma experiência artística incrível", diz o ator sobre o trabalho em 'Reis e Ratos', que estreia dia 17
“Vamos começar a rodar um filme na semana que vem. Quer participar?”. Grosso modo, foi esse o convite feito por Mauro Lima, sete dias antes de iniciar as filmagens de “Reis e Ratos”, a Rodrigo Santoro. Acostumado ao longo planejamento tanto das produções estrangeiras quanto das nacionais, o ator topou o desafio com o mesmo desprendimento com que criou a repugnante caracterização de Roni Rato, uma heresia para o público feminino. “Foi uma experiência artística incrível”, conta ele, cujo personagem é um ex-cafetão viciado em anfetamina. O resultado pode ser visto nos cinemas a partir do dia 17, quando estreia a coprodução Globo Filmes. Nesta entrevista exclusiva, Santoro conta ainda porque topou fazer “Reis e Ratos” sem cobrar e fala sobre “Heleno”, outro filme seu que estreia em 2012.
Assista ao trailer de “Reis e Ratos”
Quem é o Roni Rato, seu personagem em 'Reis e Ratos'?
É um rato. Faz pequenas negociações, vive de favores e trabalhos não necessariamente honestos. Ele é viciado em Pervitin, uma droga terrível da época (à base de anfetamina pura), um cara bem esquisito que vive à margem da sociedade. O Roni é um experimento, assim como o filme, feito em 17 dias. Quase não ensaiamos e improvisamos bastante. Foi a produção mais experimental que já fiz.
O filme usou os cenários e até figurinos de 'O Bem Amado' e, além de ter sido rodado em 17 dias, a decisão de fazê-lo foi tomada pouquíssimo tempo antes do início das filmagens. De que forma isso repercutiu no trabalho dos atores e no seu?
Todos estávamos cientes de que “Reis e Ratos” seria um grande experimento. Sabíamos quais eram as condições. Tínhamos que nos jogar e fazer. Foi o que fizemos. Cada um levou o que pôde, improvisamos bastante e, realmente, não tínhamos muita ideia do que estávamos fazendo. O Mauro vinha com o roteiro, fazia as marcações e nós improvisávamos. Foi um trabalho muito diferente de todos, uma experiência artística incrível. Pudemos ir fundo na questão de composição de personagem e não tínhamos um grande compromisso com as questões burocráticas envolvidas na produção de um longa. Era como se estivéssemos fazendo um exercício. E o exercício vai para a tela agora.
O que você achou do resultado desse exercício?
Gostei. Achei atípico e super interessante. Não é um filme que estamos acostumados a ver no cinema nacional. Os diálogos são muito engraçados e inteligentes.
'Reis e Ratos' é um filme feito com poucos recursos que o elenco resolveu abraçar. Vocês não fizeram pelo dinheiro...
Que dinheiro? Não teve dinheiro. Imagina. Cara, a gente faz isso porque é artista, porque somos malucos e gostamos de explorar possibilidades. Fiz pelo prazer do exercício, porque estava trabalhando com amigos como o Selton Mello e o Otávio Müller, além de outros ótimos atores que o Selton busca lá no fundo do poço. Também foi bacana por ter conhecido e trabalhado com o Mauro Lima, cujo texto é muito bom. Ele falou: “Olha, tem um personagem aqui que não é a sua cara e, por isso mesmo, é a sua cara”. Quando li o Roni Rato, disse: “Tô dentro”.
Você usa uma maquiagem que te deixa com aparência acabada. Como chegaram a ela?
Trabalhei muito nessa maquiagem. Compus passo a passo, usei coisas que tinha... Tenho um amigo americano maquiador, um cara fera, com quem troquei uma ideia. Levei a maioria dos elementos e o Selton me deu um belo toque ao sugerir um personagem do Willem Dafoe (em “Coração Selvagem”) como referência. Pedi também para o meu dentista fazer a dentadura que uso. Foi uma mistura de uma série de coisas.
Você diria que essas experiências são algo difícil de conseguir em produções estrangeiras e que o cinema nacional pode te oferecer?
Eu não separo minha carreira fora do Brasil da carreira no país. Para mim, é uma carreira só. Claro, há uma diferença básica que é a língua. Quando atuo em inglês, espanhol ou em italiano, como em “Meu País”, não me sinto totalmente confortável. Na verdade, nem em português, mas essa seria a grande diferença. E, claro, a estrutura se falarmos de blockbusters como “300”, uma produção gigante. Ainda assim, estamos contando histórias em todos eles. No Brasil, tenho explorado cada vez mais esses personagens diferentes. “Reis e Ratos” foi uma grande oportunidade nesse sentido. “Heleno”, que estreia em breve, também já que se trata de um personagem muito forte. Isso tem me estimulado muito nos últimos anos. Lá fora, é outro mundo, outra língua e comecei tem pouco tempo. Aqui, já se passaram cerca de 17 anos desde o meu primeiro trabalho.
A Alinne Moraes, que está contigo em 'Heleno', disse ter ficado muito impressionada e emocionada com a maneira como você incorporou o personagem, o que fez com que a equipe passasse a te chamar de Heleno. Foi diferente de outros trabalhos?
Não sei te dizer se baixou o Heleno. É o primeiro personagem real que faço, mas não o conheci e nem tinha muitas referências sobre ele além de fotos e histórias. Infelizmente, não há material que permita ver o Heleno falando ou se movimentando. Mas, de fato, foi um trabalho muito, muito intenso. Um mergulho vertical e não havia outra forma de fazer porque a trajetória da personagem é meteórica e muito trágica. Era um cara muito intenso, então eu tinha de expressar aquilo. No set, eu estava realmente muito concentrado e as pessoas começaram a me chamar assim um pouco para não quebrar essa concentração e entrar no personagem. Não sei se baixou o Heleno, mas posso dizer que foi das experiências mais fortes que tive, se não foi a mais forte até hoje.
Você gosta de jogar futebol e o Heleno era um craque. Você precisou de dublê para as cenas de jogo?
Eu fiz. Ele era um craque, mas, como o filme não é de futebol, não precisou de dublê. O futebol ilustra o filme, que é sobre a vida do Heleno. De qualquer forma, fiquei dois meses treinando fundamentos de futebol com o Cláudio Adão três ou quatro vezes por semana. Acho que deu para enganar. Melhorei muito. Os caras que jogam pelada comigo falam que sou outro jogador agora (risos). Dizem: “Que isso! O cara se infiltra na área agora que é uma beleza!” (risos). Treinei na praia e no campo com um personal trainer de futebol. Tinha de melhorar, pelo amor de Deus!
Heleno é um dos maiores jogadores da história do Botafogo e você é vascaíno. Foi traumático vestir a camisa do rival?
Sou vascaíno, mas tenho simpatia pelo Botafogo. Foi tranquilo vestir a camisa. Conheci botafoguenses apaixonados, daqueles roxos, e uma das coisas mais inspiradoras do Heleno era paixão pelo futebol e pela camisa que defendia. O futebol virou um mercado em que circula uma quantidade incrível de dinheiro, no qual vende-se jogador a todo momento. Um dos valores de “Heleno” é mostrar como, nos primórdios do futebol, jogava-se mesmo pela camisa. Hoje, isso é mais complicado. O Heleno era realmente botafoguense. Tem uma fala no filme em que ele diz: “Eu não sou jogador de futebol. Sou jogador do Botafogo”. O cara era realmente apaixonado.
Ouviu muitas brincadeiras por ter colocado a camisa do Botafogo?
Não. Acho que, se tivesse colocado a do Flamengo, ouviria, pois a rivalidade é maior. Tem um ou outro que faz uma piadinha, mas, no fundo, é tudo preto e branco. O Botafogo está na vizinhança.
Leia as entrevistas de Otávio Müller, Mauro Lima e Rafaela Mandelli
