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Rápidas

Erik Rocha

19-02-2010 ////////

Pachamama

A América do Sul pelos olhos de Eryk Rocha

De um convite para viajar pela América do Sul surgiu a ideia de montar um documentário. Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha, partiu da floresta brasileira para visitar o Peru e a Bolívia ao lado de sete historiadores. O resultado da viagem de trinta dias é “Pachamama”, um longa que pretende mostrar para os brasileiros a realidade da América do Sul de hoje. O filme já participou de festivais ao longo do mundo em 2009 e chega às telas brasileiras no dia 26 de fevereiro.

Como o seu pai influenciou as suas produções e a sua escolha pelo cinema?

O meu pai me influenciou da mesma forma que influenciou e ainda influencia muita gente que faz cinema no Brasil. Na verdade eu conheci pouco o meu pai. Ele faleceu quando eu tinha três anos de idade. A influência dele sobre mim foi mais pela obra do que pela presença física. Quem me influenciou mais pela presença física e também na estética foi a minha mãe, a Paula Gaitan.

Como você sente a responsabilidade por ser filho do Glauber Rocha?

É um grande estímulo ser filho do Glauber Rocha e ter consciência do legado dele para o cinema brasileiro. Eu não sinto essa responsabilidade como uma coisa pesada, pelo contrário. Me dá vida, me incentiva a inventar.

Como surgiu a ideia de montar o documentário?

O projeto nasceu a partir do convite de um amigo meu para viajar, o João Carlos Nogueira, que é cientista político. Ele estava organizando uma viagem pela América do Sul com alguns historiadores para ver o que estava acontecendo por aqui. Eram sete historiadores no total e entre eles estava o Carlos Teixeira da Silva, um grande historiador brasileiro. Viajamos durante 30 dias em duas Land Rovers. Foi uma experiência única. Tínhamos um roteiro geográfico na mão, mas o roteiro do filme foi sendo montado enquanto as filmagens aconteciam. Outro motivo para montar o documentário é a minha ligação forte com a América Latina. Morei seis anos em Cuba, fazendo o curso de cinema na Escola San Antonio de Los Baños, e também na Colômbia e na Venezuela.

Quais foram seus maiores desafios neste projeto?

Eu nunca tinha assumido a fotografia de um filme meu, por exemplo. Nos meus projetos anteriores eu tinha uma equipe. Fazer a fotografia deste filme foi uma experiência nova para mim. E todo o trabalho foi imensamente prazeroso, além de ter sido um grande aprendizado. Na verdade eu não sabia se as imagens iriam virar um filme ou não. E o que mais me atraiu neste projeto, na possibilidade de realmente virar um filme, foi mostrar a América Latina para o Brasil e pensar o Brasil a partir da América Latina. Eu gravei 80 horas ao todo e o material que eu não usei eu montei uma série para a televisão que foi exibida no Canal Brasil e agora está sendo exibida na TV Cultura.

E porque o nome “Pachamama” para o título?

Eu escolhi o nome durante a viagem. Pachamama é a deusa dos indígenas, e significa para eles “Mãe-terra”. Escolhi este nome porque achei que esta era uma forma de estar falando da Terra. Se você pegar o dicionário, vai ver que a definição do que é cultura é “cultivar a terra”. E hoje percebemos que a cultura ancestral dos indígenas fertiliza e alimenta a sociedade. Vários governos de origem indígena da América Latina estão assumindo o governo. É o caso da Bolívia, por exemplo, onde um indígena assumiu a presidência pela primeira vez. É desta terra em ebulição que estou falando. Pachamama é uma mitologia inca e a escolha do nome é uma tentativa de trazer isso para a contemporaneidade.

O que você viu de novo na América Latina? E o que mais te surpreendeu?
Ver que a ancestralidade está irradiando os projetos políticos por aqui foi uma das coisas que mais me surpreendeu na viagem que deu origem ao documentário. A cultura milenar está enraizando a cultura inca no Peru e na Bolívia. Hoje a filosofia inca está sendo reinventada pelas pessoas que moram nestes países. Essa é a matéria-prima do documentário: a cultura fertilizando a política. Há anos atrás, a União Soviética influenciava os movimentos esquerdistas nestes países da América Latina, era uma influência que vinha de fora para dentro. Hoje o que vemos não é uma esquerda tradicional. A influência está vindo de dentro, da própria cultura, para a política.

Como era a equipe do documentário?

De cinema era só eu. Dois dos historiadores que já iam viajar fizeram um curso de duas semanas sobre o som antes da viagem e ficaram responsáveis por esta parte. Não podia ter mais gente. Os carros já estavam cheios, eram dois Land Rovers e não teria espaço para mais pessoas nos carros.

Este é o seu terceiro documentário, certo? Você pretende continuar a fazer documentários ou vai investir na ficção? Este ano você lança seu primeiro longa de ficção também...
Estou em processo de montagem do meu quarto longa, que é o meu primeiro de ficção. Depois desse, tenho projetos de documentários e também de ficção. Para mim, uma coisa alimenta a outra. Eu não separo muito e acho que é parte de um entrelaçamento. A ficção influencia o documentário e o documentário influencia a ficção. Isso está muito interligado. Não me interessa a fronteira entre os dois, me interessa, na verdade, a desfronteira entre eles.

E como é este novo projeto? Fale um pouco sobre isso.
O meu novo filme eu escrevi com a Manoela Dias, escritora e roteirista, e está sendo produzido pelo Walter Salles e pelo Maurício Ramos. O nome do filme é Transeunte. Ele conta a história de um transeunte, uma pessoa solitária que anda pela cidade em busca de se reinventar. Fiz questão de trabalhar com atores desconhecidos da grande mídia, justamente porque é um filme que fala de anonimato. Quem interpreta o papel principal é o Fernando Bezerra, um grande ator de teatro. A maioria dos atores do filme veio do teatro. Fizemos uma pesquisa pelo Brasil todo para achar os atores que iriam participar do filme.

 

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