Rápidas
08-01-2010 ////////
Caro Francis
Filme de Nelson Hoineff chega hoje aos cinemas
“O filme é uma escancarada homenagem a um amigo”. Assim o diretor Nelson Hoineff, logo de cara, define “Caro Francis”, documentário sobre o polêmico jornalista Paulo Francis, que estreia dia 8 de janeiro (trailer aqui). A amizade de cerca de 20 anos entre os dois fez com que o cineasta se auto-incumbisse o papel de “desatador de nós” relativos à figura de voz engraçada que falava na TV. Mas, claro, Francis era muito mais do que isso. Da transição do trotskismo para o conservadorismo (quando “passou de criança a adulto”, na voz do próprio Paulo Francis); dos momentos de explosões atrás das câmeras – e haja palavrão; do homem que sabia todas as marchinhas. E também o processo sofrido pela Petrobras. Enfim, é dessa figura, humana, sem dúvida, de que trata o filme.Para recordar – ou reapresentar – Paulo Francis, Hoineff ouviu gente de todas as áreas, como Sonia Nolasco, viúva de Francis, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Nelson Motta, Ruy Castro, Fernanda Montenegro, Luis Erlanger, Boris Casoy, Ziraldo, Fausto Wolff, os companheiros de Manhattan Connection, entre outros. Abaixo, a entrevista do diretor.
O fato de você ter sido próximo de Paulo Francis dificultou a realização de um documentário sobre ele? Facilitou? Aliás, a imparcialidade foi uma preocupação na elaboração do filme?
O filme é uma escancarada homenagem a um amigo. Isso é revelado desde o título. Não há nele qualquer traço da isenção desejável numa peça jornalística. Não é um documentário jornalístico, mas um recorte sobre alguns “nós” que me pareceram essenciais para entender o Francis mais plenamente. Esses “nós” são desvendados pelas pessoas que melhor conheceram o Francis. Quase sempre, portanto, seus amigos. É por aí que o filme trafega: pela tentativa de conhecer amplamente um personagem muito complexo, contraditório e sempre brilhante. Outros documentários poderiam ser feitos sobre o Francis. Esse, no entanto, é um olhar pessoal, muitas vezes na primeira pessoa, afetivo e que muitas vezes, deslavadamente, beira o folhetinesco. Mas isso acaba sendo essencial, creio eu, para que muitos “nós” essenciais acabem sendo desatados.
Qual foi a sua opção na organização narrativa do filme? Dada a sua proximidade com o Paulo Francis, você também atua como personagem? Você procurou equilibrar declarações contra e a favor?
Estabelecemos de saída seis ou sete “nós” que considerávamos essenciais para desvendar um Francis que não era tão conhecido. A migração do trotskismo para o conservadorismo; a frustração por não ter se tornado um romancista tão importante quanto jornalista; a saída da Folha de S. Paulo; a ação milionária movida contra ele pela Petrobras; e daí por diante. Fomos em busca das pessoas capazes de falar sobre esses assuntos. Quase todas eram amigas, embora houvesse alguns detratores. Pessoalmente, não me coloquei como personagem, embora tenha inserido momentos importantes da minha relação pessoal com o Francis, inclusive uma carta que me foi enviada pela Sonia Nolasco, sua mulher, quase 30 anos antes, e que conservei todo esse tempo. Alguns dos depoentes se referem a mim, mas cortei quase tudo. Não houve a menor preocupação de “balancear” depoimentos contra e a favor, porque o filme se coloca abertamente como uma peça não isenta.
Existia mesmo uma diferença entre o Paulo Francis real e aquele que falava com trejeitos na TV?
Esse é um dos “nós” abordados pelo filme. A construção do personagem para a TV. Muita gente fala sobre isso. O Helio Costa (que dirigia a sucursal da TV Globo em Nova York), o Helio Alvarez (que era o cinegrafista do Francis), a Fernanda Montenegro, o Lucas Mendes, entre outros. Foi um personagem cuidadosamente construído, que juntou o talento de Francis como jornalista e como ator. Ocorreu uma simbiose perfeita. Criador e criatura se misturavam com muita frequência. Francis sabia disso e gostava que isso acontecesse.
Dois filmes seus estão sendo lançados em um espaço de tempo relativamente curto. E ambos são documentários sobre dois personagens de grande alcance popular. Quem veio primeiro? Chacrinha ou Paulo Francis? Como foi essa transição de um para o outro?
Chacrinha deveria ter vindo um pouco antes, Francis um pouco depois. Mas Chacrinha levou mais tempo do que o previsto para ser realizado e com Francis ocorreu o inverso. Assim, os dois filmes chegaram praticamente juntos. Ambos têm o vértice comum da transgressão. Nenhum dos dois é biográfico. Falam sobre a maneira de dois transgressores se exprimirem. Pessoas diferentes, com formas diferentes de expressar essa veia transgressora. Pessoas que estavam à frente de seus tempos. Que tiveram a coragem de remar contra a maré. E com as quais tive relações bem diferentes. De Francis fui amigo por 20 anos. Chacrinha, nem cheguei a conhecer.
O filme recebeu o prêmio de melhor filme documentário pelo júri popular no Festival Paulínia de Cinema. O que isso significa para você?
O reconhecimento, quase surpreendente, de que conseguimos falar sobre Francis para o grande público sem fazer qualquer tipo de concessão. Nem sequer creditamos o que fazem os personagens que entrevistamos e fizemos isso de propósito, para não criar um filtro entre o filme e a plateia. Mas o povão adorava o Francis que conhecia da televisão e um prêmio de público num festival onde havia documentários sobre outros personagens muito populares é um grande indicador disso. Não acho que documentários devam necessariamente ser feitos para nichos. Tanto Francis quanto Chacrinha são filmes concebidos para dialogar com o grande público.
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