Curtas
05-10-2009 ////////
Thiago Ricarte avalia sua passagem por Cannes
Diretor descobriu o cinema por causa dos filmes de terror
Quando e porque você decidiu trabalhar com cinema?
A afinidade veio naturalmente como vem com qualquer criança: desenhos, seriados e filmes direcionados ao fantástico e mágico. Porém, diria que a vontade inconsciente de querer não só apreciar, mas também fazer, veio por parte dos filmes de terror que assistia quando pequeno, e apesar da idéia coletiva do politicamente incorreto, sou sinceramente grato aos meus pais por me deixarem assistir a esses filmes teoricamente não indicados para minha idade na época. Isso, pois ao invés do medo e susto, o filme de terror foi o responsável pelo primeiro questionamento a respeito do que viria ser a representação; a sugestão que, no cinema, tudo pode ser fingido para aquele que assiste. Que lá podemos gritar, amedrontar e ferir veridicamente com um ângulo de câmera corretamente escolhido, e uma equipe de maquiagem que mostra seu segredo apenas para os poucos agraciados da equipe que veem esse momento de criação antes de apertarem o disparador da câmera ou o rec do vídeo. Parece estúpido e óbvio, mas não no olhar de uma criança de 6 anos.
Diria que, antes de tudo, os filmes de terror me deram uma noção pioneira do que viria a ser a ficção e a criação. Inculcava como era possível fazerem de mentira a pele queimada de Freddy Kruegger ou os assassinatos de Jason Voorhees com todo aquele sangue. A partir daí qualquer tipo de making of de novelas, filmes, seriados e até mesmo os pacientes desenhos a mão folha a folha dos cartoons começavam a me chamar a atenção. Encantei-me com o processo, não mais somente com o resultado. Apreciava o bolo, mas fazia questão de saber os ingredientes e segredos do confeiteiro.
Comecei progressivamente, num ar de empolgação, a criar peças de teatro em casa com os vizinhos, e um pouco mais adiante, quando meu pai comprou uma VHS, a gravar essas encenações com temas diversos agradáveis ao pensamento infantil - comédia, ficção científica, terror, etc. - com a câmera parada em cima de uma mesa - bem ao estilo dos primeiros filmes mudos - e bem mais adiante, arriscar um mínimo de decupagem e efeitos stopmotion - com resultados desastrosos e ao mesmo tempo engraçados, pois toda a edição era feita na hora com o rec da câmera. Até o ginásio fui registrando esses "curtas", porém via tudo como divertimento, bagunça, hobby puro. Nunca enxerguei como possibilidade de trabalho. Percebi que poderia trabalhar com cinema só no ensino médio - até então pretendia cardiologia, apesar da zoologia ter sido também uma forte candidata de escolha -, quando o ritmo acelerado e paranóico das escolas voltados para o vestibular fez com que descobrisse cursos acadêmicos voltados para o audiovisual, e depois, para o cinema especificamente.
Na época, minha cabeça, como grande parte das pessoas, estava condicionada a fazer uma faculdade, então, após descobrir a possibilidade do curso, não me via estudando outro senão o cinema. E apesar das normais desilusões e problemas que encontramos em qualquer instituição, não me arrependo do curso.
Começar dirigindo curtas foi uma opção ou este é um início obrigatório para quem quer trabalhar com cinema? Os curtas seriam uma porta de entrada para o cinema?
Não existe um início obrigatório para qualquer tipo de carreira, especialmente a do cinema. Obviamente a concretização de curtas-metragens é mais alcançável que a de longas tanto por razões de liberdade artística como de exibição. Porém, o curta é uma opção mais fácil para se fazer cinema por razões e limites tão somente técnicos, ainda mais com a facilidade de custo que a evolução do digital propõe - apesar do meio digital ser para alguns uma mídia que deve propor novas linguagens estéticas, e jamais "tentar" imitar a película. Discordo em parte desse discurso, pois querendo ou não, a celulóide está sim com seus dias contados. Já em termos de linguagem, a questão pode ser tão difícil e delicada como a de um longa, isso porque, a meu ver, o ritmo conceitual e estético do curta-metragem é único e bem diferente do que o de um longa. Assim, apesar de muitos cineastas de longas-metragens terem começado com o curta, não o considero como uma porta de entrada para o cinema de maneira dogmática. Particularmente, pretendo partir para o longa-metragem quando a oportunidade surgir casada com um projeto - meu ou não - que considere conciso e maduro, e também diria que, no meu caso, começar dirigindo curtas foi uma necessidade inicial de produção para se fazer cinema sim, porém, no decorrer do processo de criação, foi que percebi que essa produção tem um meio rítmico só dela.
Você acredita que os curtas sejam marginalizados (em relação aos longas) mesmo por quem produz cinema?
Apesar da maior possibilidade de liberdade de expressão em relação ao longa - fator que automaticamente nos leva a categorizá-lo como marginal-, o maior fator dessa terminologia, a meu ver, provém mesmo das possibilidades remotas de exibição - normalmente em festivais onde o público mínimo que tem interesse deve se deslocar de suas casas para "prestigiar" o evento. Pouquíssimos programas de TV exibem curtas, e a lei obrigatória de exibição no cinema antes dos longas na década de 80 não funcionou por motivos específicos.
O curta ainda não recebe o devido espaço para divulgação para o público e não é exibido em salas comerciais. O que você acha que deve ser feito para que estes filmes recebam maior visibilidade? Qual o caminho, hoje, para a exibição dos curtas?
A saída que muitos veem com relativo otimismo é a internet, e a evolução contínua da banda larga, associada ao vídeo streaming. Como forma da ampliação de divulgação, é uma ótima alternativa, agora obviamente perdemos no quesito da qualidade de exibição, além da pobreza e efemeridade do que é uma pessoa assistindo a um curta na rede e o que é essa mesma pessoa assistindo ao mesmo filme numa sala escura, sentada ao lado de um coletivo de pessoas apreciando - ou desapreciando- o trabalho exibido. Na internet, falamos mais em viewers do que em público. Cada visualização é individual, podendo ser afetada por qualquer fator externo, uma comparação próxima ao que alguns num passado próximo falavam da televisão. Enfim, cairíamos na velha questão romântica e apocalíptica pós-moderna da morte do cinema - seja do longa, seja do curta. Sinceramente, não sei qual seria o melhor caminho para a exibição dos curtas.
Como foi a experiência de ter o seu curta indicado para exibição em Cannes?
Foi uma ótima experiência conhecer e fazer parte da seleção oficial de um festival de tamanho prestígio. Pontos bons e ruins fizeram parte desse curto período que estive por lá. Foi produtivo conhecer todas as pessoas que estavam na nossa categoria do CinéFondation. Trocar experiências e conhecer um pouco tanto as divergências como os traços em comum de jovens estudantes que querem fazer cinema. Descobrir um pouco das diferentes burocracias e apoio que cada escola tem para com seus alunos em diversos países.
O que incomodou um pouco foi o glamour das Premières dos grandes filmes concorrentes à Palma de Ouro. Todo o ritual do tapete vermelho, fotógrafos e imprensa direcionados aos "looks" das estrelas, rostos dos famosos etc. ganham uma importância tão surreal que automaticamente cai num superficialismo triste. De qualquer forma, é compreensível que todo esse glamour se dê para promover os filmes. A pré-estréia mundial em Cannes com equipe e elenco é noticiada em todos os veículos de comunicação no dia seguinte. Obrigatória tática de lançamento. Mas confesso que me senti um pouco incomodado com toda essa "festa".
Como conseguiu dinheiro para fazer o seu filme? Em que condições ele foi rodado? Fale um pouco da produção.
O filme foi um projeto de trabalho de conclusão de curso aprovado pela banca de professores da faculdade. A câmera e seus complementos, além de parte de maquinaria - bandeiras, rebatedores, trilhos - foram cedidos pelo curso durante um período de 10 dias. Dispensamos o uso de geradores e refletores, assim, o projeto foi inteiro rodado com luz natural num período de uns 7 dias na rodovia Fernão Dias, no KM37, em Atibaia, com apoio da Polícia Rodoviária Federal. Digamos que 1/3 do orçamento foi contado com o apoio cultural da companhia de transportes Expresso Araçatuba, e todo o resto de finalização e parte da produção bancado dificilmente por nós formandos - apesar da faculdade fornecer parte da finalização nos filmes dos alunos, nosso caso foi uma exceção, pois precisávamos de uma cópia urgente para enviar para a França e a instituição não pôde suprir com a agilidade necessária a produção dessa cópia. Foi um filme de baixo orçamento. Tentamos economizar o máximo possível sempre com saídas alternativas que não prejudicassem a diegese conceitual e estética da história. Um bom exemplo foi a escolha de uma camionete desligada para ser empurrada durante a cena do longo travelling ao invés do aluguel de trilhos extras ou de uma steadicam - a steadicam já estava quase fora de cogitação por proporcionar uma sensação de movimento diferente da do trilho.
Quem deu a idéia de incluí-lo no festival? Como foi o susto quando você recebeu a notícia de que ele tinha sido aceito para exibição em Cannes?
Já pensava em inscrever o filme em Cannes desde os primeiros cortes. Após umas sessões individuais com alguns professores de confiança, eles mesmos incentivaram a inscrição. Ficamos felizes com o reconhecimento. No início, achava que o filme não seria compreendido pelo público de fora em razão de se passar em um contexto muito nacional: os chapas de estrada. Se a maioria dos brasileiros desconhece essa profissão, o pensamento natural que surgia era "então imagine só os estrangeiros!". Porém, a indicação e exibição em Cannes nada mais provaram que o âmago do filme não eram os chapas, mas sim sensações de sentimento e situações universais de saudade, família, de esperança e da falta dela.
Os chapas sempre foram um pretexto para contar uma história num espaço que me chamava atenção: a beira da pista. Em nenhum momento do projeto há uma explicação direta do que vem a ser o chapa, e quando o filme acaba, fico feliz em perceber que as pessoas recebem sensações claras de sentimento (sejam elas positivas ou negativas) sem a necessidade de entenderem algum tipo de contexto funcional e explicativo.
Que dicas você dá para quem quer iniciar a carreira e se tornar diretor de cinema?
Também quero descobrir um caminho. Não me sinto na posição de dar dicas. Cada um segue o caminho que acredita ser o melhor, intuitiva ou logicamente. Fazer um filme é um risco e um campo de experimentações. O risco das coisas não funcionarem está lá por mais que tenhamos a confiança na história, pois essa confiança nem sempre é garantia de sucesso, por isso digo que sou um funcionário da história também repleto de dúvidas e incertezas em cada plano, falas, ângulos... É difícil e até imprudente da minha parte, como diretor, falar isso, mas tudo é uma descoberta. Do roteiro à primeira cartela de créditos. Talvez nossa função seja libertar e encontrar os caminhos de uma coisa que sempre esteve lá, presa. Quem sabe depois de alguns filmes seguintes - se, logicamente, tiver novas oportunidades - possa ter idéia de algo mais concreto. É tudo ainda muito desconhecido e novo. Talvez permaneça novo até o último projeto.
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