Curtas
05-10-2009 ////////
Vera Egito fala sobre seus filmes e a estreia no cinema
Diretora teve dois curtas exibidos em Cannes este ano
Quando e porque você decidiu trabalhar com cinema?
Essa é uma pergunta difícil de responder. Não sei ao certo. Desde que comecei a pensar em trabalhar - e isso foi mais ou menos aos catorze anos - pensei em cinema. Decidi fazer o colegial no centro da cidade, em uma escola que unia ao currículo obrigatório matérias profissionalizantes. Escolhi o curso médio de publicidade, pois havia ali matérias de comunicação em vídeo. Eu tinha quinze anos, mas já sabia que era isso. Na verdade, na época eu não sabia de fato, mas tinha a sensação clara de que era isso. Depois entrei na ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP) e tive certeza. Aquilo era o que eu mais gostava de fazer, meu assunto preferido, um trabalho que fazia com que me sentisse em casa. Encontrei meu mundo.
Começar dirigindo curtas foi uma opção ou este é um início obrigatório para quem quer trabalhar com cinema? Os curtas seriam uma porta de entrada para o cinema?
Tudo é opção. Quero dizer, no trabalho com arte, tudo é uma escolha. Ninguém é obrigado a fazer um curta para fazer um longa. "Não tive opção" é uma frase que não compreendo vindo de um artista. Porque, no mínimo, você sempre tem a opção de não fazer. Não acho que um cineasta precise filmar curtas para fazer um longa. O que acontece é que os curtas envolvem muito menos dinheiro e muito menos tempo em sua produção. O que torna a realização mais rápida. Comigo foi um caminho natural, mas não creio que tenha que ser assim para todos.
Quais são as dificuldades e vantagens de realizar um curta-metragem?
As dificuldades são as que existem em qualquer produção de cinema. O dinheiro é curto, o orçamento é sempre apertado. Mas brilhantes longas-metragens da nossa cinematografia foram filmados com igual restrição. O caráter enxuto de orçamento não é privilégio dos curtas apenas.
As dificuldades vêem do ato de realizar o filme em si. Reunir aquelas quarenta, cinquenta pessoas em torno de uma idéia. Mobilizar caminhões, geradores, acervos de figurinos, cenários. Construir esse mundo à parte colocando pessoas distintas para trabalharem lado a lado. O mais difícil em fazer um curta é fazer o curta. Superar essa jornada intensa que vai da pré-produção à cópia final. Acho que nos longas essa deve ser também a maior dificuldade. Às vezes, é uma guerra, parece que todo mundo vai se matar. E às vezes é uma festa, onde todo mundo se ama e se admira. No final sai o filme. A maior vantagem de se fazer curta-metragem é ter uma liberdade maior para experimentar e uma chance maior de errar. Quero dizer, o público do curta-metragem busca experiências mais diversas que o público do longa. Com o curta, não há esse compromisso com os valores arrecadados nas bilheterias ou com o retorno dos investimentos. O curta permite que o realizador fique mais livre para criar. No longa, existem outros compromissos, porque há muito mais dinheiro envolvido.
Você acredita que os curtas sejam marginalizados (em relação aos longas) mesmo por quem produz cinema?
Não. Acho que todos no mercado têm a consciência de que o curta não tem um valor econômico. Ele é uma produção voltada para a experiência criativa e apreciativa. Ou seja, ninguém faz um curta por dinheiro. É raro sessões de curta cobrarem ingressos. Estamos em um campo de trabalho que está alheio às lógicas de mercado. De certa forma, marginalizado como você diz. Porque está à margem da indústria de captação, produção e distribuição. Mas vejo aqui algo bom. Justamente porque isso dá liberdade aos realizadores de curta. E liberdade também ao público, que pode ir aos festivais de curta-metragem sem pagar nada e entrar em contato com uma produção diversa e interessante.
As pessoas que produzem cinema não marginalizam o curta. A questão é que os profissionais de cinema são muito especializados. O trabalho em um curta, dependendo do departamento de que você faz parte, pode tomar de uma semana a dois meses. As pessoas precisam pagar suas contas e, na maioria das vezes, se trabalha em curtas sem ganhar nada. Então, é claro que os profissionais não estão sempre disponíveis. Mas não vejo isso como um preconceito em relação ao curta. É uma questão prática da vida. Afinal, questões práticas também existem, embora eu não goste muito delas.
O curta ainda não recebe o devido espaço para divulgação para o público e não é exibido em salas comerciais. O que você acha que deve ser feito para que estes filmes recebam maior visibilidade? Qual o caminho, hoje, para a exibição dos curtas?
Acho que deveria haver mais mostras, mais exibições abertas ao público. Ano passado comentei com uma pessoa que trabalha na Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo que os curtas realizados através do Prêmio Estímulo ao Curta-Metragem nunca eram exibidos em conjunto. Todo ano, há mais quarenta anos, o Estado de São Paulo premia pelo menos doze roteiros de curta-metragem. Diretores paulistas famosos produziram seus primeiros filmes por meio desse prêmio. Porque não exibi-los?
Fiquei feliz porque, esse ano, aconteceu a Mostra Prêmio Estímulo, que exibiu os doze filmes contemplados em 2008, incluindo o “Elo”. Acho que o caminho do curta é esse. Exibições gratuitas, de caráter cultural.
Já ouvi muito falar de retomar a exibição de curtas precedendo longas no cinema. Mas não acho uma idéia boa. As pessoas pagam para ver o longa, já tem de assistir a um monte de propagandas, e ainda teriam de ver um filme que não escolheram ver.
Acho que mostras, festivais e projetos como o “Curta às 18h”, da Petrobrás, são bons caminhos de divulgação, e devem ser ampliados. O acesso ao curta deve ser livre. Acho que é bom preservar o formato fora da lógica das salas comerciais. A produção de curta é um momento em que o autor tem a oportunidade de experimentar. É onde muitos roteiristas, fotógrafos, diretores, diretores de arte, atores e demais profissionais começam a exercer suas profissões. É um espaço para a experimentação. Acho que assim deve permanecer.
Como foi a experiência de ter os seus curtas indicados para exibição em Cannes?
As notícias vieram em separado. Primeiro, no final de 2008, o “Espalhadas pelo Ar” (veja trecho), meu primeiro curta, recebeu o prêmio “Descoberta da Crítica Francesa” em um importante festival de filmes estudantis do país. Eu não estava presente no festival. Estava em São Paulo trabalhando na pré-produção do “25”, meu próximo curta.
Recebi um e-mail com a notícia do prêmio. E, assim como quem não quer nada, o autor do e-mail me avisava que o ganhador desse prêmio é, consequentemente, exibido na Semana da Critica do Festival de Cannes. Lugar onde a crítica francesa apresentaria sua “descoberta”. Acho que eu reli o e-mail mais de dez vezes em silêncio. Tenho até a memória fotográfica dessa mensagem. Foi inacreditável. O “Espalhadas pelo Ar” foi feito por estreantes. Todos nós, inclusive o elenco, fazíamos cinema pela primeira vez. Chegar em Cannes era impensável. Nossa maior ambição era terminar o filme. E, de repente, estávamos lá. No Festival mais importante do mundo. Receber a notícia foi muito emocionante.
O “Elo” foi enviado para seleção dentro do processo normal. A Ioiô Filmes, produtora do filme, fez a inscrição e enviou o DVD para a comissão. Próximo da data de divulgação da lista de selecionados, recebi um e-mail de Bernard Payen, um dos selecionadores de curta-metragem da Semana da Crítica. No e-mail ele dizia que havia gostado muito do “Elo” e que via uma conexão entre esse filme e o “Espalhadas pelo Ar” (que já estava na mostra). Bernard disse nesse e-mail que a idéia era exibir ambos os filmes em caráter especial, para chamar atenção à marca autoral que ele via nos trabalhos.Eu fiquei pasma. Nem nos meus sonhos mais loucos imaginava exibir meus dois primeiros filmes em Cannes. Parecia mentira. Mas era verdade.
Como você conseguiu dinheiro para fazer os seus filmes? Em que condições eles foram rodados?
O “Espalhadas pelo Ar” foi meu projeto de conclusão de curso na ECA-USP. A Universidade não financia o filme propriamente, mas dispõe de acordos de colaboração com diversas áreas do mercado que permitem a produção. Os negativos, os equipamentos de luz e a própria câmera 35mm foram conseguidos através desses acordos. Posteriormente, a Ioiô Filmes teve um papel muito importante na finalização e difusão do filme. A ECA também participa de toda a distribuição do curta até hoje. É um projeto que o CTR (Departamento de Cinema da Universidade) cuida com muito carinho.
O roteiro de “Elo” foi contemplado com o Prêmio Estímulo do Estado de São Paulo de 2007. O prêmio dá o valor de oitenta mil reais para a produção do filme. Foi uma conquista muito importante. Era meu primeiro projeto fora da faculdade, conseguir produzi-lo era um desafio. Filmamos em agosto de 2008, em São Paulo.
Em fevereiro desse ano filmei “25”, meu terceiro curta, ainda inédito. O roteiro do “25” recebeu o Prêmio da Prefeitura de São Paulo, também no valor de oitenta mil reais. Foi uma produção complexa. Filmamos na Rua 25 de março no centro da cidade. O protagonista é um menino chinês que trabalha no comércio da região. Tivemos um elenco estrangeiro e diálogos em chinês. Foi divertido, mas bastante cansativo também. Foi a equipe mais completa com que trabalhei até hoje, o que tornou a produção possível, pois as dificuldades eram muitas.
Que dicas você dá para quem quer iniciar a carreira e se tornar diretor de cinema?
A dica é fazer um filme. O filme que você puder fazer, da maneira que você puder. Um vídeo documental, uma ficção, uma idéia simples, uma idéia complexa. Seja o que for, faça. Acho que a única maneira de saber se você é diretor de cinema é tentando. Faça o filme e exiba o trabalho. Tenha a experiência completa de produção e exibição. Mesmo que seja algo bem simples, bem curto. Como todo o ofício, exige muito amor e dedicação. Uma dose de sorte e uma dose de vocação. Não tem como descobrir isso se você não tentar.
- 11-02-2011Geral
- 23-12-2010Portais de curtas
- 28-10-2010Curta Cinema
- 05-04-2010A Distração de Ivan
- 14-04-2010Karl Max Way
- 30-12-2009Curtas que marcaram época
