Rápidas
05-10-2009 ////////
Animação cresce
Ideias criativas são a aposta de Marta Machado, Presidente da Associação Brasileira de Cinema de Animação
A animação brasileira ainda pode e precisa evoluir, é verdade. Mas também é fato que as produções nacionais apresentam qualidade crescente e seus profissionais se destacam também no exterior. Marta Machado, presidente da Associação Brasileira de Cinema de Animação, afirma, nesta entrevista, que o espaço do Brasil na animação mundial, ainda tímido, tende a crescer. O avanço tecnológico será um dos aliados, e poderá permitir acesso à formação na área para um número maior de brasileiros.
O interesse dos brasileiros pela animação também se mostra maior a cada dia. Prova disso é a grande participação nos eventos que acontecem no país, como o Anima Mundi, no Rio de Janeiro, e o Dia Internacional da Animação, 28 de outubro, que acontece no mundo todo, mas que é comemorado de forma especial no Brasil. No ano passado, ele foi celebrado em 150 cidades brasileiras, com evento produzido pela ABCA. Este ano, a expectativa da instituição é de chegar entre 300 a 500 cidades brasileiras.
Diante deste cenário, a animação brasileira, que já recebeu prêmios internacionais, tornou-se um caminho interessante para quem quer trabalhar com cinema, ou mesmo com publicidade e internet. Confira a entrevista com Marta Machado na íntegra.
Qual o espaço do Brasil no cenário da animação mundial?
O espaço do Brasil ainda é tímido. Tem crescido nos últimos anos porque a produção de animação no mundo cresceu. Conseguimos algumas batalhas por editais específicos de animação, o que ajuda a movimentar o setor, mas ainda é, sem dúvida, tímido, principalmente quando comparado com países como a França, os Estados Unidos e até mesmo a Argentina, que é um país forte na produção de animação.
Podemos afirmar hoje que o Brasil exporta animação?
Existem experiências de co-produção em andamento e o cenário é positivo, mas ainda não há uma produção tão grande que nos permita dizer que o Brasil é exportador de animação. Temos boas idéias e bons criadores, mas ainda há muita coisa a ser feita para tornar a animação brasileira uma indústria.
Qual a formação dos animadores brasileiros?
Em geral, os animadores brasileiros são formados em cursos avulsos, que chamamos de independentes, ou seja, não são acadêmicos, e muitos são autodidatas. Também tem uma geração que começou a surgir de cursos universitários de cinema e que estão se voltando especificamente para a animação, mas ainda é um número relativamente pequeno.
Que benefícios a criação da associação brasileira de cinema e animação trouxe aos animadores brasileiros?
Ao longo destes seis anos, tivemos uma série de conquistas, como crescimento no número de editais específicos para a animação e o surgimento de novos festivais no Brasil, entre outras, que podem ser encontradas no site da ABCA (www.abca.org.br). Apesar da instituição ainda ser uma entidade jovem, já fez bastante coisa pela animação brasileira.
Qual a qualidade da animação brasileira em relação aos outros países?
A produção de animação no Brasil tem uma boa qualidade, principalmente do ponto de vista criativo. Nas produções nacionais, há uma diversidade grande e um leque de ideias promissoras. A animação do mundo todo não é padronizada. Tem países que desenvolveram estilos próprios, como o Japão, e outros que se especializaram muito na produção de conteúdo para a TV, como o Canadá. O Brasil fica atrás destes países, mas se comparado com outros, há um contraste. Portugal, por exemplo, terminou o primeiro longa em 2006. E só a Otto Desenhos aquele ano já tinha terminado o seu segundo longa, sem contar com todos os outros produzidos no Brasil. Apesar de Portugal ser um país de primeiro mundo e uma nação européia, e de ter uma tradição literária e gráfica forte, ainda engatinha na animação. Mas estou me referindo aos longa metragens, porque a produção de curta metragem deles é grande.
As produções nacionais ainda podem evoluir?
Podem evoluir, sem dúvida. Sempre poderão evoluir, porque não se trata de algo estático. A animação é um tipo de produção que, principalmente graças à tecnologia, tem se renovado com constância. No Brasil, hoje, há deficiência de roteiristas e está começando a haver uma disputa de mão de obra no país. Estes são exemplos do que ainda pode evoluir.
Qual a importância do dia internacional da animação, que ocorre em 28 de outubro?
O dia internacional da animação é muito peculiar no Brasil. É um dos poucos lugares do mundo onde esta data é comemorada de forma organizada, ampla e sistemática. Este ano, pela primeira vez, o evento contará com o patrocínio da Petrobras. No ano passado, o evento ocorreu em 150 cidades brasileiras e este ano a meta é chegar a 500 cidades, mas se conseguirmos ter 300 cidades participando já será um mega evento. Esta é uma tentativa de aproximação do grande público em relação à animação, além de ser uma atividade de formação de público e um sinalizador da melhora da qualidade e do crescimento da produção da animação brasileira. O mais legal do evento é a celebração da animação e também a proporção que ele tomou no Brasil, graças, sem dúvida, ao trabalho da ABCA, que é quem promove o evento no Brasil.
Quais são os principais eventos voltados para a animação que ocorrem no Brasil? E no mundo?
Além do dia internacional da animação, o Brasil tem o Anima Mundi (www.animamundi.com.br). É um evento respeitado e que está no circuito mundial dos eventos de animação. Além do Anima Mundi, os festivais de animação mais importantes do mundo são Annecy, Otawa, Hiroshima, no Japão, entre outros. Um deles é o Expotoons, na Argentina, que este ano vai ter o Cartoon Connection, um encontro viabilizado com recursos do Mídia Cartoon, que é um programa de incentivo à produção européia, que vai tentar fazer uma aproximação dos produtores de animação europeus com latino-americanos. No ano passado o Brasil foi premiado neste festival. Ganhou o prêmio de melhor longa metragem com o “Wood & Stock”. Estes eventos têm uma preocupação de dar visibilidade e tentar circular o que está sendo produzido.
De onde vêm os recursos para as produções nacionais?
O percurso para viabilizar um filme de animação é muito parecido com o da realização de um filme de imagem real. Os recursos aparecem através dos editais e das leis de incentivo.
Que caminho um animador estreante deve percorrer para investir na profissão e divulgar o seu trabalho?
O animador estreante deve praticar muito. Ele pode ser um autodidata, porque existem livros e muita bibliografia internacional. Existe pouca coisa produzida no Brasil, mas muita coisa para ver na internet. A internet é uma forte fonte de informação para os animadores, tanto para assistir filmes de outras pessoas quanto para ter acesso a bibliografia e material didático. A Otto Desenhos (www.ottodesenhos.com.br) está montando um curso de animação online, o que é precursor no Brasil. A previsão é que este curso esteja no ar até o final do ano. A Infraero patrocina este projeto, que também é de interesse do Ministério da Cultura, principalmente porque se for possível desenvolver um sistema de formação online, este sistema pode chegar a talentos em qualquer lugar, em qualquer situação e região do Brasil, o que significa uma potencialização de mercado. Também será uma ferramenta importante que pode resgatar pessoas em situação de risco. Em relação aos cursos, existem vários, principalmente nos grandes centros. São sempre cursos relativamente curtos, mas é uma porta de entrada para quem está querendo começar na área.
A produção de animação hoje no Brasil tem qual plataforma como principal cliente?
A maioria das pessoas que estão no mercado produzindo conteúdo em algum momento já produziu publicidade. A publicidade sempre foi muito forte. Ela está um pouco mais fraca agora agora até pela diversidade de outras produções disponíveis. No Brasil existe um eixo forte trabalhando com produção de conteúdo para a TV e outro que trabalha com conteúdo especial para a internet, e outras pessoas que trabalham com animação para cinema.
A produção de animação no Brasil está concentrada em alguma região? Por quê?
Existem focos de produção de animação em vários lugares do Brasil. São Paulo é um importante centro, com uma produção bastante forte, principalmente em publicidade. O Rio também tem um núcleo forte em função até do Anima Mundi. Também existem focos de produção no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Na Bahia está sendo desenvolvido um longa metragem agora e em Fortaleza foi produzido um dos curtas mais premiados do país. Há vários lugares no Brasil onde se produz animação e com a facilidade tecnológica é muito provável que em breve muito mais gente produza animação do que temos noção.
Existe uma estimativa de quantos profissionais estão envolvidos no setor hoje no Brasil?
Não existe esta estimativa. Estamos estimulando o Ministério da Cultura a fazer uma estimativa da cadeia produtiva, mas esta pesquisa só deve ficar pronta no ano que vem.
Existe um calendário dos principais festivais de animação? Como os estreantes podem ficar sabendo destes festivais e inscrever suas animações?
Existe o kinoforum (www.kinoforum.org.br), um site que edita um catálogo dos festivais e eventos. Existe também o fórum dos festivais (www.forumdosfestivais.com.br), onde também estão listados se não todos, pelo menos a maioria dos festivais. Para os festivais internacionais específicos de animação existe a Animation World Network, AWN, (www.awn.com) onde estão listados vários festivais do mundo todo.
Existem animadores brasileiros se destacando no cenário mundial?
O grande expoente da animação brasileira hoje no mundo é o Carlos Saldanha (“A Era do Gelo”), que tem dirigido animações e é sócio de um estúdio em Los Angeles. Existem também outros brasileiros em outras produções, como o Ennio Torresan e o Rodrigo Washington, que também está em Los Angeles, entre outros.
- 29-06-2011Anima Mundi 2011
- 03-02-2011Brasil Animado 3D
- 22-12-2010As aventuras do avião vermelho
- 09-12-2010Brasil Animado
- 28-10-2010Dia Internacional da Animação
- 18-08-2010BugiGangue
